No Divã da "Enferma": O Botão Encarnado
Estávamos no início do ano lectivo, quando o curso se reuniu pela primeira vez para analisar um tema em relação ao qual se impunha a decisão de premir ou não o botão encarnado.
Durante a análise da situação, ficou claro que havia diferentes níveis de domínio da informação por parte dos elementos do curso - alguns (entre um terço e metade) pareciam ter toda a informação, enquanto outros estavam completamente "a leste". Não dei muita importância a este facto na altura, mas viria a entendê-lo mais tarde.
Após diversas intervenções, havia decisões para tomar. Íamos premir o botão? Se sim, íamos premí-lo de imediato ou esperar algum tempo?
Após a votação, ficou decidido que íamos premir o botão, mas que, face às consequências, só o íamos premir mais tarde (o timing ficou definido). Estavamos (aparentemente) a funcionar como curso.
No dia seguinte, o botão foi premido.
Nunca chegámos a fazer uma reunião para perceber como é que uma decisão que tomámos como curso foi "torpedeada". Ouvi dizer que o botão "se tinha premido", ou que tinha sido premido por desconhecidos, mas a explicação mais plausível apontava para alguns "papagaios de pirata"(*) que, não contentes com o resultado da votação, resolveram agir. Aparentemente a reunião destinava-se a legitimar uma decisão que já estava tomada, só que não correu exactamente como os organizadores previram.
As minhas expectativas face ao trabalho que podíamos fazer enquanto curso acabaram nesse dia. Não foi por causa do botão encarnado ou da decisão tomada, mas sim por perceber que qualquer processo de decisão do curso seria uma "palhaçada": ou legitimávamos a decisão da "facção dominante", ou então a decisão "ia para o penico".
Foi mau? Nem por isso. O que é mau é estar num jogo do qual não se conhecem as regras. E aprendi que só levo um tema a discussão e votação se acho que vou ganhar, e que tenho que arranjar uma forma de adiar a votação "para reflexão" quando, a meio da discussão, percebo que afinal posso não ganhar.
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(*) Estão sempre no ombro do pirata, a falar-lhe ao ouvido. Quando o pirata fala, não é claro de quem é a opinião/decisão.
48 comentários:
Entendi perfeitamente a moral da história, e todas as metáforas lá pelo meio, mas não percebi isto:
O "botão vermelho" é apenas uma metáfora sobre qualquer assunto que o teu curso discutiu ou é outra coisa qualquer? Se é outra metáfora, fico esclarecido. Se é outra coisa qualquer, gostava que me explicasses, pode ser?
Obrigado
O botão encarnado representa uma acção concreta sobre um tema concreto que o meu curso analisou. É um botão encarnado porque, nos filmes, as acções mais importantes são sempre desencadeadas premindo botões encarnados... ;-)
Foi uma forma que arranjei de me referir à situação sem ter que a caracterizar - mesmo que tivesse o direito e a vontade de o fazer, este não seria o fórum adequado.
Certamente que o teu curso também teve botões encarnados para premir - acontece a todos... - é só fazer o paralelo.
"Compreendi-te" como diria o Vasco Santana.
Tens a minha autorização para publicar aqui a parte do discurso (que fizemos a meias e que eu li na biblioteca aquando do reencontro do curso em 2002) que se refere a este assunto.
Já agora porque não contas a triste história do Alvin?
É esta coisa espantosa - a comunicação entre/com pessoas com enorme capacidade de retenção de informação e inteligência - que fará certamente, deste blog, um documento valioso, no seu tempo devido... tenho muita fé.
O botão vermelho.
Esta foi para a parte de trás do cérebro....
Todos vão interrogar-se: Porquê vermelho? E porquê botão? And why to... "push the button"?
E que carga de água tem o sofá da enferma a ver com a Guerra em África?
E porque é que este fórum não é o meio apropriado para se discutir qualquer parte que seja, da morfologia do esqueleto em questão?
Acho que pode ser.
A primeira frase que um aluno ouvia com pompa e circunstância, após concluir o 5º ano do Colégio, na noite em chegava de casa após as Férias Grandes, à futura camarata, era: "A Quarta não é a Selva!"
Como se fosse uma placa avisadora na linha divisória do Estado do Amazonas dizendo: "Atenção, fica tranquilo pô! Di maneira nenhuma você tá entrando na Selva, hein? Pura especulação, cara! Vai em frente, qui é tudo boa gentchi-tchi-tchix!(som de navalha-borboleta abrindo)...
-continua-
Quanto à triste história do Alvin, foi mesmo triste, especialmente para quem sentiu e viveu a "história" na primeira pessoa ao vivo e a cores, como interveniente principalmente passivo, mas também activo,incrédulo e apavorado.
Houve a oportunidade na altura, de verificar como a histeria colectiva, afinal, revela e altera tanto a natureza humana, e pode um agente tão modelador da sociedade, à nossa escala de então, mas também a outras escalas , como se poderá aferir da actual conjuntura mundial, para bem ou para mal.
Quem esteve atento, verificou nesse mesmo período bem negro do nosso curso, quem reunia as características de um camarada e quem era um mero cordeiro ou um arruaceiro.
Um tema interessante que gostaria de ver como tópico autónomo e que julgo que talvez ajudasse a um acto de contrição sincero que o Alvin merece há muito, muito tempo, deste curso de 77, que não sendo o seu original, o enquadrou durante quase 5 anos de forma salutar, até subitamente, o descartar, ou pelo menos lhe ter dado razões fortíssimas para se sentir descartado.
Sinceramente, não me lembro bem dos detalhes da história do Alvin.
Talvez o meu cérebro, por sentimento de culpa ou por horror, tenha decidido esquecer o que se passou. Ou talvez porque os acontecimentos do último ano, devido à diferença proporcionada pela experiência de ser graduado, tenham "esmagado" muitas das memórias anteriores.
jags, sei que viveste esses acontecimentos com uma grande intensidade, em papéis muito mais destacados do que simplesmente o de "vizinho" de camarata, e por isso esta "antena" é tua para abordares o tema, com "honras de 1º página", e não simplesmente num comentário "perdido" no meio do "blog".
Não é fácil, my friend, não é nada fácil... mexe com coisas muito feias que pura e simplesmente não deveriam existir, quanto mais acontecer.
Sei o que passaste Fózi, "incrédulo e apavorado", agora imagina o Alvin... como é que foi possível???
"Incrédulo e apavorado" são eufemismos que usei para não ter de relatar toda a infâmia do processo.
Não consigo aqui dizer quantas dezenas de bojardas (leia-se murros, chapadas, garrafas de whisky - vazias, claro), comi na boca, na cara, nas costas, só porque tremia com frio, de nervoso, de sede, de exaustão física e psicológica ou porque finalmente já não dizia nada coerente com nada, ou porque me esquecia ou confundia o que teria feito às 12h51m ou às 21h49m, de um dado dia três meses antes...
Lembro-me de o irmão do cabrão que me tinha furado o tímpano esquerdo um ano antes à estalada, furou-mo - ganda Homem - ganda Camarada - espero que ardas lentamente no Inferno meu grande cona que nem cornos mereces - nessa ocasião, pela segunda vez, ao murro e em grande estilo. Lembro-me que até houve aplausos na sala de leitura, porque espichou sangue do meu ouvido, "Taxi Driver" style...
Estávamos em Janeiro e lembro-me que tinha sido operado ao cotovelo esquerdo no Hospital Militar da Estrela 2 semanas antes deste processo atingir o seu auge, para retirar os 2 parafusos do braço que tinha partido gravemente ao serviço da Exma. Classe Especial de Ginástica em Maio anterior, e os meus "interlocutores", batiam-me no mesmo com pernas que tinham arrancado das cadeiras da sala de leitura da Quarta, porque eu não conseguia esticar na perfeição o braço esquerdo em "Sentido", nem unir os dois dedos mais pequenos da mão esquerda, pois nem sequer os sentia (só os comecei a sentir quase dois anos depois) após a cirurgia...
Não, esqueçam!... teria, para contar a história na sua plenitude, de vomitar (de nojo) pormenores sujos e acusações em todas as direcções - desde certos "camaradas" (com "c" de Cú) de curso, a certos "camaradas", novamente com "c" de Cú mais velhos que nos comandaram, a certos Oficiais de carreira mafiosos e frustrados, que faziam do Colégio, a sua coutada e clube privados, e local para extensão caricata do seu Ego, ou do seu pénis, ...e é melhor ficar por aqui. A sério...
Como foi possível?...
...as consequências, ou o nosso ingénuo esquecimento?
Da parte dele, imagino como terá acontecido:
...com uma enorme generosidade da parte dele...
...com uma enorme mágoa que ele ainda hoje sentirá, porque sei que, na altura, ele gostava imenso do Colégio...e do nosso curso.
...porque não lhe restou outra saída depois da vergonha que era a de ver 150 gajos (o curso original dele e o nosso) a olharem-no por cima do ombro e mais 50 graduados a foderem-lhe a vida e o corpo cada vez que dava um espirro, como aliás prometeram que lhe fariam...
...o orgulho ferido, mas ainda assim firme, com que se apresentava e dava o passo em frente quando os graduados perguntavam, por exemplo quem tinha falado na formatura no refeitório, nas semanas que decorreram após o desfecho triste da questão que o envolveu, querendo no fundo humildemente mostrar que, quando fazia merda não tinha medo de se acusar, e provando portanto, por absurdo, que quando nada fazia de mal, não tinha nada que se acusar...
O desfecho foi inconclusivo, apesar das estúpidas e desproporcionadas torturas físicas e psicológicas a que foi sujeito por tanta gente, como eu aliás também fui, apenas por que tinha um número de diferença do dele, dormia na cama ao lado dele na camarata, pelas informações que achavam que eu possuía, ou dos actos que achavam de que era cúmplice, tendo por isso me deparado, a par dele, com o fardo de ser o bode expiatório perfeito de toda a frustração e exaustão de uma Companhia (menos um par ou dois de almas) e dos ideais de Macho, que ser da Quarta - a tal que "não era a Selva" - representava.
E tudo se revelou inconclusivo, porque nada havia a concluir no que dizia respeito ao Alvin, como aliás se veio a constatar uns meses mais tarde ... tarde, de mais.
O Alvin teve a atitude certa.
Apoiado pelo pai - na altura militar em Tancos - teve uma conversa muito emotiva com ele mesmo em frente à Porta de Armas numa fria Segunda-Feira à tarde de Janeiro. Eu lembro-me de ir a passar e não ouvir o que diziam, mas quase adivinho cada palavra...
E poucas semanas depois, foi-se embora.
Cagou de alto em nós.
Mandou-nos todos, com um sorriso escondendo sofrimento, à merda, e fez ele muito bem.
Não foi ele que nos perdeu.
Fomos nós que o perdemos a ele.
Só espero que não para sempre.
Quanto a mim, acobardei-me, borrei-me todo na circunstância de poder vir a tomar o mesmo tipo de decisão, e por respeito a alguns Camaradas que me ajudaram na altura a manter-me o mais calmo e optimista possível e me apoiaram, e por medo de desapontar a minha família, continuei no Colégio.
Não me arrependo ter ficado, mas deixei de ser o mesmo e de acreditar sem reservas no puro espírito Colegial e no “Um Por Todos, Todos Por Um”, após aquele incidente.
- continuação -
"O Botão vermelho"
A Quarta Companhia era onde se enquadravam, pelo menos no nosso tempo, os cursos do Sexto e Sétimo anos, ou seja os alunos mais velhos à excepção do curso dos graduados, que correspondia ao Oitavo ano.
Houve um período anterior ao nosso, quando ainda não tinha sido criado o Oitavo ano (12. Ano de Escolaridade) em que a Quarta era composta exclusivamente por alunos do Sexto Ano e por vezes por um pelotão do 5.Ano.
A guarnição de graduados “residentes” na Quarta, normalmente seria composta por 1 comandante e um sorja por pelotão, um comandante de Companhia, os graduados da Escolta e os graduados do Comando (Comandante de Batalhão, Com.Adjunto, Porta-Bandeira, Porta-Guião, etc.), embora não fosse rígida a regra no que toca a estes últimos.
No entanto, houveram anos lectivos em que, pela dimensão que certos cursos conseguiram manter ao chegarem ao último ano, a par com determinadas razias que certas reformas curriculares e maus fígados de certos professores faziam aos cursos de graduados do ano anterior, se produzia o efeito socialmente curioso de criar cursos de graduados Gigantes.
Ou seja, mesmo nomeando 4 graduados por cada pelotão do Batalhão Colegial e respectivos Comandantes de Companhia, Escolta a Cavalo, e um Comando anabolizado, com (Adjuntos e “Adjuntos de Adjuntos”), mesmo assim, por vezes, ainda sobravam uma meia dúzia de “passarinhos” sem nomeação, a que era imposta a graduação tão carismática, como mística, de “Furriel”.
Furriel, era também a graduação que era desonrosamente imposta, quando um graduado no cumprimento das suas funções de uma graduação superior, que podia inclusivamente ser a de Comandante de Batalhão, cometia uma falta disciplinar grave, implicando uma punição exemplar, imediatamente abaixo da expulsão.
Ocorreram procedimentos disciplinares dessa ordem, se não me engano em 78/79 por ocasião das situações graves verificadas nas “Pinturas” com tinta plástica e outros abusos perpetrados na mesma altura, por exemplo a alguns camaradas que eram filhos de militares na altura conotados com a ala esquerda ou revolucionária dos Movimentos políticos do pós-25 de Abril de 74.
De vez em quando, haviam também as célebres “boiadas gerais”, com respectiva punição, em que um curso inteiro era desgraduado a Furriel e chegava a chumbar colectivamente.
O curso do Sétimo ano de 1932, onde militava um saudoso antecessor meu, por exemplo, chumbou colectivamente por motivo de uma boiada a um professor de Inglês que era também Capitão, e azar do escafandro, naquela ocasião, o Oficial de Dia – onde é que eu já vi isto? Lembra-me assim de repente o Brazão ou o Durbalino - foram todos para Férias grandes mais cedo e no ano lectivo seguinte, o curso foi todo enquadrado com a graduação de Furriel, vindo a ser à posteriori, oficialmente, o Curso de Saída de 1933. Neste caso concreto, o curso estava inclusivamente para ser colectivamente expulso do Colégio e só não o foi porque um neto ou um sobrinho do Dr. Oliveira Salazar ou do Marechal Carmona, pertencia ao Curso e então resolveram apenas desgraduar a malta toda sem os expulsar, para não embaraçar em demasia o aparelho político de então.
Outras vezes, por motivo de protesto veemente contra uma qualquer situação da vida colegial, um curso, colectivamente, depunha as graduações, assumindo assim voluntariamente, por defeito, também essa graduação.
O curso anterior ao nosso, por exemplo, em finais de 1983, chegou a depôr as graduações colectivamente perante a ameaça do fim dos “Chás Dançantes”, e assumiram, por algumas horas as funções de Furriéis, mas depois das famosas “Filinhas de Pirilau” mais visíveis a partir da Lua que a Muralha da China, e a impagável rapsódia do “Ogivas”, na altura o Oficial Comandante da Quarta, acerca dos alunos “Coagidos e Coalhados”, tudo ficou em águas de bacalhau, as partes reflectiram, os Chás continuaram como dantes, e as graduações voltaram aos ombros dos “corajosos”...
- continua (prometo) -
De todos os brilhantes comentários do jags (este homem sim, devia ter um "blog"), o deste "post" onde ele abordou o "caso Alvin" impressionou-me particularmente pelos factos e pela forma como foram apresentados.
Quem achava que a violência desproporcionada apenas existia nos filmes do Tarantino, terá ficado a saber que também existiu algures para os lados da Luz.
Acho que temos que fazer alguma luz sobre estes processos, não propriamente para perseguir os carrascos, mas para fazer justiça às vítimas. Se bem que, e pegando no que diz o jags, a maior parte das vítimas está-se nas tintas para a justiça e, já agora, para nós também.
Para além da minha participação nos "eventos colectivos" do "caso Alvin", a minha participação "a solo" limitou-se a um interrogatório "como nos filmes", com um candeeiro com uma lâmpada forte apontado à cara.
O interrogatório era conduzido pelo Ruminante (designação fictícia) e estava presente, entre outros, o Um-dos-40-do-Ali-Babá (outra designação fictícia).
Ninguém me bateu, ou porque perceberam rapidamente que eu não sabia nada, ou porque não tinham nada de visceral contra mim ou, simplesmente, porque ainda não tinham bebido o suficiente.
No fim, fizeram-me uma pergunta inesperada: "Quem é que achas que foi?"
Fiquei a olhar para eles com cara de parvo. Já sabiam que eu não sabia de nada, e por isso queriam o quê? O meu "feeling"? Ou simplesmente alguma justificação para abrirem um novo ramo da investigação e "chocalharem mais alguma árvore para ver se caía fruta"?
Como eu fiquei calado durante uma eternidade, o Ruminante insistiu comigo, tranquilizando-me: "Podes falar à vontade, porque não te vai acontecer nada".
Perante um convite destes, quem é que podia resistir? ;-) Disse-lhe que suspeitava do Um-dos-40-do-Ali-Babá. Pelos vistos não era o único, porque o jovem já tinha ensaiado o discurso da sua defesa, e "declamou-mo", com ar indignado.
"Achas que eu era capaz de vou fazer passar por isto se fosse o culpado?". Nem respondi, mas presumo que os 100W na minha cara lhes permitiram ver o que eu achava.
O "Um-dos-40-do-Ali-Babá" foi também um dos meus inquisidores iniciais, na primeira e segunda das 20 ou mais sessões em que tive o prazer orgasmático de ser participante.
Os esbirros da Gestapo, desculpem, os camaradas averiguadores, presentes: o "Fifó" - nome fictício dito por alguém sem língua e sem dentes, o do "Silence of the ..." - nome fictício, o "Bigorna" - nome fictício mas óbvio, o "Bêbado-Filho" - nome fictício ainda mais óbvio, o “um dos 40-do-Ali-Babá” - nome fictício, e pasme-se, o “Sturnus Vulgaris” – nome traduzido do Latim, e o Irmão do “Bêbado-Filho”, larilas mal assumido, que não gostava nem de vinho nem de destilados, mas gritava alto e agudo e irritava solenemente por se revelar tão infantil, para um corpanzil daquele tamanho.
A minha primeira sessão de inquisição espanhola durou cerca de 4-5 horas num Sábado à noite na segunda semana de Janeiro de 1983 – ficámos todos o fim-de-semana retidos – entre as 2 e as 7 da manhã. O inquisidor e anotador de serviço, era o Fifó, o inquisidor auxiliar era o “Silence of the...”. O manobrador do projector de 100W era o “um dos 40”. O “Sturnus Vulgaris” e o “Bêbado-Filho” e o seu Irmão, não fizeram perguntas, à excepção do irmão do “Bêbado”, que de vez em quando, soltava uns gritinhos estridentes quando se irritava com alguma coisa que ouvia e não gostava.
Uma passagem ilustrativa da pertinência e do alcance da “sessão de averiguação:”
-“Em 08 de Novembro de 1982, a que horas, passaste em frente ao antigo pavilhão de Química – na altura o pavilhão do Orfeon?”, a que respondi, pelo horário escolar que tinha na altura:
- “Bom, devo ter passado por volta das 12h50, provavelmente, como devo ter saído das aulas às 12h45...”
-“Ah, tá bem – e ouviste música no pavilhão ou não?”,
-“hmmm.... não sei, já não me lembro....”.
-“Não te lembras? Mentes! Lembras-te sim, a música era do orfeon do Carioca, ou dos Nova Atitude? (grupo de Rock do 129-Slave, do 136, do Badabiz – irmão do Roncon e de mais outro que não me lembro)?” ,
-“Eh pá não sei, nem sei se havia música ou não...”
-“Diz-nos, era do Carioca ou do grupo de Rock?”
-“Sinceramente, já não me lembro...”
-“Lembras-te pois, sabes muito bem, havia música...”
-“Já foi há muito tempo, passamos todos os dias pelo pátio da Enferma após as aulas da manhã, umas vezes ouvimos música, outros não, como me vou me lembrar desse dia em particular?”
-“Não sejas mentiroso, membro dos caprinos com cornos enrolados, sabes muito bem, conta a verdade ou fornico-te esses cornos todos, queres ficar aqui a noite toda?”
-“Não posso garantir, se havia música.”
-“Então estás a dizer que não havia música no pavilhão?”
-“Estou a dizer que não me lembro se nesse dia havia música ou não”
-“Ai o Pénis, fornique-se, filho de uma rameira...” – toma lá uma garrafa de whisky nessa tromba para te lembrares melhor. Tum-Tóim!
Acertou-me felizmente no osso da cara logo abaixo do olho, que por sinal tenho bem robusto, vá-se lá saber porquê, fez ricochete e rolou de novo para baixo da mesa de onde as perguntas também eram disparadas, mas com menos momento cinético.
-“Então agora, refrescou-se-te a memória?”
-“AAH! Eh pá, fod....-se, para que foi isso?... eu não fiz nada para vocês me atirarem com uma garrafa à cara, desta form.... PUM!” – O bigorna tinha vindo por trás de mim, sem que eu me tivesse apercebido, com a dor de ter levado com a garrafa, e tinha-me “emprestado” um soco dos dele, no maxilar.
-“Importas-te de responder às perguntas, filho daquela que vende o corpo, havia ou não música, e era do Carioca ou Rock?”
-“Eh pá já disse que...” – o bigorna começou a ganhar balanço com a mão para me emprestar mais qualquer coisa - ... eh,eh, afinal, pensando bem, era capaz de haver música...” - esbocei um sorriso amarelo.
-“ Ah, assim tá melhor, e era do Carioca ou Rock?”
-“Talvez fosse Carioca, não sei, se fosse Rock, talvez eu até tivesse parado para ir ouvir um pouco porque gosto de os ouvir tocar, por isso, como não me lembro de ter parado lá por esses dias, então se realmente havia música, devia ser do Carioca...”
-“OK, confere! Levanta-te! Mandem entrar o outro Cona e ponham este ali atrás escondido debaixo da mesa, para confrontar com o outro quando for necessário”
Entrou o Alvin a seguir, a chorar. Era o primeiro interrogatório a sério que ia ter mas sabia-se já preparado para ser crucificado. E foi.
Na manhã seguinte,por volta das 08h00, os nossos camaradas averiguadores mandaram reunir a companhia toda no geral em pijama e enrolada em cobertores, e o Fifó apresentou os resultados brilhantes e absolutamente incriminadores, através das notas que foi tomando ao longo da sessão de Sábado à noite:
Sujeito 1 - “Perguntámos ao Cona 1 se havia música no Pavilhão, por volta das 12h30-13h00 de dia 08 Novembro de 1982. Este respondeu que havia música e era do Carioca.”
Sujeito 2 – “Perguntámos ao Cona 2 se havia música no Pavilhão no mesmo dia e na mesma hora. Este respondeu que havia música e era de Rock.”
Facto – “No dia 08 de Novembro de 1982, entre o 12h30 e as 13h00, não havia música nenhuma a ser tocada no Pavilhão velho de Química.”
Resultado – “O Cona 1 e o Cona 2, estão ambos a mentir; o Cona 1 e o Cona 2, estão a esconder qualquer coisa; Companhia, olhem para a cara destes dois senhores, e apontou a minha cara e a do Alvin, e agora façam o que quiserem deles...”. E realmente muito foi feito... muito.
Nunca percebi a relevância de haver música ou não no Pavilhão...
Julgo que teria a ver com o estabelecimento da hora, a que cada um dos suspeitos indigitados, terá chegado à Companhia, porque foi nesse dia que o 439-Bettencourt, após ter chegado à camarata, se achou roubado e se queixou aos graduados que lhe tinham palmado 350 Escudos do armário.
O interrogatório em questão nada tinha a ver com os 350 Escudos do 439, nada tinha a ver com os 150 Escudos que vieram a desaparecer um mês depois do saco preto do 255-Capela, tinha sim a ver com o desaparecimento de uma mini-Calculadora científica com funções estatísticas e trigonométricas, Casio Fx, a qual desapareceu do armário do seu dono, o 82-Freire, indo depois aparecer espantasticamente debaixo do colchão do 315-Matos, dois dias depois, após o roubo ter sido anunciado na companhia e ter havido ameaça de “firmeza”.
Isto foi em Janeiro de 1983. Em Abril de 1983, num incidente que decorreu na viagem de curso dos Graduados, o “Um dos 40 do Ali Babá”, segundo se soube, foi apanhado a roubar dinheiro aos próprios colegas de curso e foi expulso, sendo que nas averiguações que tiveram lugar nessa ocasião, acabou por confessar então que teria também tentado roubar a dita Calculadora ao 82, tendo colocado a mesma debaixo do colchão do 315 para despistar, dado que até se dava muito bem com ele.
Em 1986, eu estava no segundo ano do I.S.Técnico e quando regressava das Aulas, saía do comboio em Vila Franca de Xira e passa-me um gajo a correr, fardado de soldado da Força Aérea. Reconheci-o. Era o “Um dos 40”.
Cheguei a casa e contei ao meu pai. Olha, vi um antigo colega meu do Colégio, o “de quem era Fernão, o circum-navegador” – designação legal do “Um dos 40”.
- “Ah, sim?” Onde?”
- “Em Vila Franca de Xira à saída do Comboio...”
- “Ah, pois, ele está na Força Aérea na Ota, como praça e conheceu lá a filha do Major Pardal – nome fictício, e namora com ela.
- “Hummm, então está muito bem entregue, a filha do teu colega Major!...”
- “Porquê?”
- “Esquece, não é nada, com o tempo a gente vai ver...”
- “Não entendi...”
- “Deixa, são coisas cá minhas”
Seis meses depois, o meu pai disse-me que o Major Pardal tinha expulso de casa dele, o namorado da sua filha, tendo este sido inclusivamente obrigado a fugir pela janela e a se atirar do primeiro andar para a rua. Contou que tinha surpreendido o “Um dos 40” a bater na filha, durante uma discussão entre ambos, devido a ele lhe ter roubado dinheiro da mala.
Uma vez Metralha... sempre Metralha, já lá dizia o Tio Patinhas.
O Alvin saiu do Colégio passado umas semanas dos interrogatórios e das torturas físicas brutais que lhe foram infligidas colectivamente por quase todos os graduados da Quarta e os de outras e do comando, com graduação igual ou acima de Comandante de Companhia.
As mesmas torturas físicas foram-me também infligidas embora com menor intensidade.
Como inquirido e suspeito encontrava-se também presente na sessão final de investiga-pancadaria, o 459-Pardal, o qual inteligentemente, para provar que não era culpado daquele delito em particular, confessou cerca de 30 outros roubos anteriores que tinha efectuado durante a sua vida no Colégio - encheu uma folha A4 com os items e as datas.
O pardal dado ter confessado os roubos anteriores com total displicência, foi poupado às torturas e assitiu literalmente, em primeira fila, às que nos foram "ministradas".
O 459-Pardal, é hoje ironicamente, Magistrado de carreira no Ministério da Justiça.
Não imaginava o "Sturnus Vulgaris" envolvido nisto, mas sim a estudar ou a dormir as 8 horas que os livros recomendavam...
Quando chamei a esta série "No Divã da Enferma", estava longe de imaginar que ia despertar este tipo de memórias - mas ainda bem que as despertei.
Assumo que a totalidade dos visitantes deste "blog", ou pelo menos dos que se dão ao trabalho de "escavar" até às páginas secundárias, são ex-alunos do Colégio ou pessoas com alguma ligação ao Colégio. Se são apenas visitantes distraídos, é importante que saibam que tudo o que os escandaliza também nos escandaliza.
Tenho que reconhecer que, na época em que frequentei o Colégio, havia momentos de “paranóia colectiva” em que se ultrapassavam todas as marcas e se praticavam actos de violência em nome da Justiça. Sou mesmo capaz de afirmar que, sempre que se praticavam actos de violência, era em nome da Justiça.
Essa “paranóia colectiva”, com interrogatórios e castigos individuais e colectivos, surgia normalmente associada a dois temas: suspeitas de práticas homossexuais e suspeitas de furtos. Nessas alturas, os graduados mais equilibrados eram frequentemente ultrapassados pelos mais “primários”, e o resultado era geralmente um processo patético, que daria para muitas gargalhadas, não fosse o facto de ser geralmente bastante violento e marcar de forma terminal alguns camaradas, que acabavam por sair, quer fosse de imediato, quer fosse no fim do ano. Felizmente que estas situações eram muito excepcionais (mas vão lá explicar isto a quem as viveu…).
O jags conseguiu passar por uma dessas situações e seguir até ao fim. Que eu me lembre, foi o único. E não foi certamente só por o pai o “mandar para as obras” se saísse que ele decidiu continuar no Colégio.
Pela informação que tenho obtido (“blogs”, contactos pessoais, etc), o Colégio já eliminou por completo estas práticas. Ainda bem.
Acabei mesmo por "ir para as obras" - one way or the other - acho que era o destino. Mas fui porque eram os ossos do ofício que escolhi...
Até hoje, ninguém da minha família soube do que se passou naquele mês de Janeiro de 1983.
Se soubessem, talvez compreendessem melhor determinados pontos do meu carácter que por vezes causavam estranheza no seio familiar.
Tenho a certeza absoluta que o Alvin fez o mesmo, à excepção da abertura que teve de ter com o pai em determinado momento.
Aqui há uns anos, encontrei o 430-Santos, no Hospital da Força Aérea em Lisboa, quando a minha mãe foi operada. Lembram-se do 430?
Fui bastante próximo como colega de brincadeiras e farras, juntamente com o 442-Pereira (Peçonha), numa dada fase da vida colegia e guardo-lhe boa memória.
Falei com ele na messe de Oficiais do Hospital durante meia hora e deu para perceber que também fechou tudo dentro dele, do que se passou a meio do 3. ano e que o obrigou a sair.
Ninguém soube o que foi ao certo.
O boato que correu, referia que ele se passou por completo. Que teve um ataque de histeria, que era epiléctico, que era cobarde, que saiu do colégio pois acusou graduados de o obrigarem a comer sabonetes... e não se podia acusar um graduado... de nada.
Tivemos uma firmeza bastante prolongada e lixada inclusivé, por ele ter saído, ordenada pelo comandante do 1. pelotão - 3 estrelas, em virtude de o 430 pertencer ao mesmo.
A razão da firmeza foi: "um dos vossos camaradas de curso acusou graduados, saiu do Colégio, foi fazer quexinhas ao pai, o qual foi dizer para os jornais que cá dentro se brutalizam os alunos, que granda mentiroso - tomem lá uma firmeza - tóin! - uma semana a encher".
Ficámos então a saber em primeira mão que no Colégio ninguém brutalizava ninguém, era tudo uma questão de interpretação e de capacidade de encaixe...
Este episódio, faz-me vir à memória assim repentinamente o nome de Lídice, na Checoslováquia. Não pela dimensão do sucedido, ou pela tragédia, longe disso, mas pelo carácter revanchista e retroactivo da punição aplicada.
Lembro-me que inclusivé o 609- Caetano - irmão do 641, comandante da 2.Companhia na altura, que era um graduado com carácter duro mas justo e sociável, se colocou um pouco de parte, nessa ocasião.
No entanto, tenho a certeza que se o 430 hoje em dia, colocasse aqui um comentário acerca de todas circunstâncias e razões que o levaram a sair, muita gente ficaria admirada, e sensibilizada...
Podíamos levar uma carga de porrada, ficar a sangrar, com os olhos negros e a cara toda inchada, podíamos ir para as aulas e os professores nos martelarem com perguntas que não podíamos jamais em tempo algum, responder, podíamos andar meses a tomar medicamentos para reparar males definitivos feitos por um indivíduo 2 ou 3 anos mais velho, só porque que usava estrelas ao ombro e tinha a cobertura dos restantes capangas de curso e a cobardia calada e conivente de todo um batalhão de carneiros, do qual eu também fazia parte.
Estou de consciência tranquila na vida, felizmente.
Permito-me hoje encarar as injustiças presente e passadas de forma clara, coerente, e sem medo tentar passar uma mensagem de não resignação às gerações de alunos mais novos, para não deixarem que algo parecido, aconteça de novo.
Não há nada na tradição pura do Colégio Miltar, nem nos manuais ou Regulamentos de Disciplina Militar, nem nos Calixtos dos nossos camaradas mais velhinhos em que se afirme que se devam, ou que aprovem perpetrar actos, como os que foram aqui relatados e outros que (ainda) não foram.
Nada!
Tudo o que possa servir de justificação para o emprego de força brutal num ambiente com tantas alternativas de imposição de disciplina, é de facto um atestado de incompetência e de cobardia de quem o comete.
Sei o que o colégio me deu de bom e sei o que me deu de mau.
E até reconheço que me deu muito mais de bom, que de mau.
No entanto, se alguém se sentir desconfortável com o que relato, pode-se chegar à frente e debate-se o que houver a debater.
Chagas, tu é que puxaste do divã!...
jags,
a "comunidade" quer saber:
1) Porque é que um jovem pacato como tu, que não incomodava ninguém e até era da classe especial (uma das elites), de repente aparece associado a isto? Só por ser "vizinho de cama" do outro suspeito? E porque é que o outro suspeito era suspeito?
2) O que é que aconteceu (no sentido lato...) no "façam o que quiserem deles"? Não me lembro de nada, mas tenho a sensação de que me vou arrepender de ter perguntado.
3) Qual era a marca do Whisky? ;-)
Chagas, as tuas primeiras perguntas são curiosas... mas pertinentes.
De facto, o Colégio tinha destas coisas. Queres recordar-te?
Então conta-me lá como um jovem bem comportado e também pacato, como tu, Chagas, tiveste duas punições, uma por num Sarau do Colégio, terem dito que tinhas comido uma sandes ou um gelado (já não me lembro) que estava para lá num saco no meio do Pavilhão Carlos Lopes e outra por andares aos pulos no colchão do salto em altura do campo de futebol? Achaste-te culpado nas duas ocasiões? E achaste as punições adequadas às faltas alegadamente cometidas?
Pois não, mas levaste-as e tiveste de as encaixar, não foi?
Consegui sair do Colégio sem uma única punição, sem um único ponto de cor vermelha no cadastro. Acho que só houve mais dois do nosso curso com essa "aura": Se não me engano, o Fofo-82 e o Bébé-583. E olha-me bem a comparação...
... eu fazia muitas, desenfiava-me, baldava-me bastante, fazia muitas tropelias, mas safava-me sempre... às vezes à justa, nem sei como... mas nunca fiz nada de desonesto a um camarada, como mijar-lhe ou cagar-lhe na cama (como me fizeram a mim), roubar pertences ou coisa parecida ...bom, ...revistas pornográficas, não contam, OK? Aviso já, porque também me roubaram muitas e nunca levei a mal – afinal a informação era para se partilhar e era extremamente egoísta possuir aqueles autênticos manuais de Vida Sexual Nórdica, que eram as “Ginas”, e não as passar voluntariamente ao pessoal...
Pois, eu era pacato, mas isso mesmo, era vizinho de camarata do principal suspeito e pior do que isso, fui dizer para o primeiro interrogatório que era amigo dele. Talvez na altura, até um dos melhores amigos... Pela boca morre o peixe, aprendi-o então...
Porque é que o Alvin era suspeito? Simples:
Porque quando alguém descobria que lhe tinha desaparecido algo, na Segunda-Feira de manhã, a culpa era sempre atribuida aos gajos que costumavam ficar no Colégio no Fim-de-Semana... eram como os mordomos, "os suspeitos do costume"... naquela vez, calhou ele na rifa, no caso em apreço, sem razão nenhuma.
Quanto à pergunta acerca do que se passou a seguir, asseguro-te que alguns dos participantes do teu blog sabem tão bem quanto eu o que se passou... acho que até foi um bom estágio para o período “pré-Botão Encarnado”... capisce?
A última é fácil, era um Highland Clan ranhoso, que se comprava (ou se desviava) no Bar do Pessoal.
E as tuas aventuras como super-herói ("pija-man") não terão também contribuído para te tornar num "suspeitável"? ;-)
Quanto às minhas punições - tive 3! Estás a perder a memória... ;-) - , acho que algumas delas darão bons "posts" em tempo oportuno...
A terceira não me lembro sinceramente... faz scan das ditas e "posta" aí, para a gente ver quanto pontos "lerpaste", eh! eh!
Eh,pá, isso até tem tanto valor como as medalhas, homem!
O "Pija-man" era um Super-Herói muito conhecido nas noites de camarata no Colégio, com altos super-poderes de raio-X para detectar, sonegar e voltar colocar no local original de extracção, literatura pornográfica de alto cariz educativo de dentro de armários verdes metálicos fechados a sete chaves, e que usava uma indumentária caracterizada por um inseparável pijama turco da cor dos gatos à noite...
"Inseparável" é a expressão que me estava a faltar... ;-)
Caro Chagas e demais participantes nos comentários deste distinto blogue! Talvez agora percebam, a razão do crescente número de hits vindos da Suécia e do que eu tive que pensar para me decidir a escrever algo(Chagas estou impressionado com o teu Sueco, levou-me a mim 6 meses de aulas para chegar ao teu nível)!
Fala-se aqui do meu curso! E os nomes adoptados são bastante sugestivos para bom entendedor. Tenho vergonha? Tenho! Porque se calhar devia ter sabido e devia ter feito alguma coisa e não fiz reconhecendo agora que devo ter vivido num mundo paralelo em 83 demasiado preocupado com outras coisas mundanas. Obrigado a quem ainda que inconscientemente, tenha feito luz sobre algo que agora para mim faz mais sentido. Como o alheamento do s...vulgaris, em tempos grande camarada meu.
Agora neste fim-de-semana pensarei seriamente em fechar para sempre o meu blogue colegial. Os posts que tinha para publicar já não me fazem sentido!
Um grande abraco a todos!
Freitas (15/75)
PS: Para os mais esquecidos o ladrao era o Preto-355 (nao me lembro do apelido) e foi a mim que ele roubou 100USD na viagem de curso. Passamos a vergonha de ter que formar na parada da Legiao Estrangeira em Nice para uma eminente revista "a nu" pelo Cor Bivar, nao fosse o dinheiro aparecer milagrosamente na cadeira do 135-Jeronimo (pelos vistos era o seu "mudus operandi")
Fechar o "blog"? Nem penses! Levavas já a cama "ao poço".
Não vamos generalizar, nem desistir perante a imagem de uma minoria que não representa os nossos valores.
Qual é a minoria que menos representa os "valores" do CM? A que "rouba" e "tortura" (os termos não são meus), ou a que denuncia isso publicamente para poupar dois tostões do divã do psiquiatra?
E que dizer do desrespeito pelo "aviso" do vosso chefe de curso (que o é por inerência de graduação, não é?) para pararem com estas chibagens? Quando ele próprio diz que se lesse estas coisas ficava com dúvidas de pôr lá os filhos...
Mas não seria o 1º, já que os "nobres" deste país não deixaram o nosso "rei" matricular o "D." Dinizinho no CM... devem ter lido este blog e parece que nos jesuítas, para onde mandaram o pirrolhito, não há garrafas de uísque nem vergastadas nem chagas (de cristo, pois claro)...
Olha, um anónimo...
Já que quer ser anónimo e leu com tanta atenção as coisas que eu escrevi, vou ajudá-lo na interpretação do meu português.
Está pronto? OK, então puxe esta caixa de comentários para cima e leia o quarto comentário: "Bicos said..."
Percebeu? Se sim não ponha na minha boca coisas que eu não disse e que se me conhecesse saberia que eu nunca iria dizer. Se não percebeu escolha outro personagem para interpretar e distorcer o que se disse.
Só não o mando para um sítio porque este blog não é meu.
Não resisto...
Anónimo, vai para a puta que te pariu.
anonymous,
já há muito tempo que não tinhamos anónimos nesta lista, e eu faço-te o mesmo pedido que fiz ao(s) anterior(es): arranja uma identificação qualquer que nos permita relacionar as tuas diversas opiniões (supondo que vais dar mais).
Respeito as opiniões de todos, mesmo dos anónimos, porque sei que às vezes não é fácil "dar a cara". É preciso ter muita coragem para assumir algumas coisas que aconteceram no passado.
Não fico, naturalmente, satisfeito quando alguém refere números e nomes. Acho que seria preferível ficarmo-nos pelas "designações fictícias" que permitem a quem lá esteve na altura lembrar-se, mas não diz nada às restantes pessoas.
Quanto ao conteúdo: (1) não acho que isto sejam "chibagens"; (2) o D. Duarte e a sua esposa têm todo o direito de escolher em que escola querem educar os filhos; (3) "chefe de curso" é hoje uma expressão com carácter meramente representativo. Hoje a opinião do meu "chefe de curso" vale tanto e merece-me tanto respeito como a de qualquer outro camarada; temos tido algumas divergências saudáveis sobre questões do passado, com uma grande virtude: não são anónimas.
em relação ao filho do rei, posso vos assegurar que o puto não foi para o CM porque os pais estão com medo que ele falhe, pois acham que ele não está preparado,mas para o próximo há uma forte possibilidade de ele entrar , mas quanto ao seu segundo filho não têm duvidas de que ele vai para lá.
Quantos aos casos revelados aqui, revelam aquela cobardia e hipocrisia que se viveu durante muito tempo, mas felizmente posso vos assegurar já não são bem assim. Fui graduado em 2004-2005, e os métodos mudaram, essas torturas já não fazem sentido, num colégio onde os graduados para exigirem têm k dar o exemplo, e onde existe formas mais inteligentes de castigar do que a violência, onde os graduados são realmente irmãos mais-velhos, penso que um gajo que enfia com uma garrafa noutro miúdo mais novo não é seu irmão mais-velho. Fui graduado da 3ªcompanhia, e para obrigar os miúdos a fazer determinada coisa tinha k ser eu o primeiro a fazer essa mesma coisa, não era através das duas estrelas k tinha k obrigava os putos a chegar a tempo ás formaturas, mas sim através do facto de eu também lá estar a tempo á frente deles, o meu curso sempre levou muito assério estas questões do exemplo e da proibição da violÊncia e por isso é k conseguimos acabar com estas hipocrisias e cobardias que forma relatadas pelo jags. APAREÇAM NO BAR DA ASSOCIAÇÃO DE ANTIGOS ALUNOS , E AÍ PODEMOS TER GRANDES CONVERSAS SOBRE ESTES TEMAS, DIGAM UM DIA PARA SE COMBINAR, ACHO QUE SERIA SERIA MUITO INTERESSANTE. FICA O APELO!
UM FORTE ZACATRAZ
Camaradas
Escrevo com a alma dorida, mas com a convicção de que os grandes males do CM, que certamente terão penalizado muitos jovens, continuam ainda a ser largamente suplantados pelo que de bom foi sendo oferecido a tantas gerações.
Sou daqueles que todos os dias obedece à imposição social de usar gravata. Mas, no desconforto, há sempre algo de positivo. O fato que visto permite-me transportar, SEMPRE, uma barretina na lapela, que ostento com o orgulho de ter sido um Menino da Luz.
Confesso que a minha memória não é tão boa como a de alguns camaradas que registam ainda, com enorme clareza, episódios e referências pessoais do seu tempo. A memória é também selectiva e certamente a vivência de situações traumáticas justifica que não se esqueçam ... ou então que se releguem para as profundidades do subconsciente.
Eu também apanhei injustamente, outras vezes com a legitimidade da culpa ....
Éramos miúdos a crescer.
TODOS!
A humanidade produz indivíduos medíocres com regularidade, mas são as sociedades que permitem a sua maior ou menor capacidade de fazer sofrer os restantes. E pontualmente registam-se derrotas relevantes que a todos envergonham.
Experimentei muitos sentimentos no CM.
Trago-os todos comigo, mas felizmente valorizo muito mais aqueles que me levam a colocar a barretina na lapela do fato.
Não se pode de esperar que seja assim com todos.
A brutalidade descrita nos factos relatados é de uma dimensão ... esmagadora. Factos do meu tempo e que eu não tive, na altura, a adequada capacidade de perceber...
Certamente ainda mais dolorosos para quem os viveu na 1ª pessoa e que terão condicionado, irreversivelmente, a sua imagem da Instituição. São as experiências pessoais, que incluem também tudo a que assistimos (na forma como as percebemos), que moldam a opinião.
Continuo a valorizar o CM, não obstante os relatos de alguns camaradas a quem o infortúnio colocou pela frente gente menos recomendável, em proporções desajustados por ocorrências infelizes.
Mas o CM não pode ser classificado pelas suas desgraças escondidas.
Falou-se em cobardia e violência.
E a solidariedade, camaradagem, espírito de corpo ...?
Eu vivi isto tudo e não encontrei, “cá fora, na sociedade civil”, nada que de perto se assemelhasse. Infelizmente.
O CM não é o que está relatado!
Infelizmente faz parte dos capítulos negros da sua história, mas não aceito que se identifique a Instituição com os seus episódios mais infelizes, que certamente serão muitos ao longo de mais de 200 anos.
Aos maltratados pelo CM, não posso deixar de dizer que lamento a vossa experiência pessoal .
Podia ter sido eu e se calhar não usaria a barretina.
... mas não é essa a memória que transporto. Nem o feed-back de tantos outros camaradas que por aí passaram e de outros que se cruzam comigo na rua, com uma barretina no casaco.
E permitam-me concluir com uma última referência.
Por maior respeito e solidariedade que mereçam as vítimas envolvidas nas crueldades descritas, o CM também merece o respeito de uma Instituição centenária que continua a estar associada à promoção de valores de excelência humana.
Não se deixem tentar pela proposta de descrédito do CM, através da sua identificação exclusiva com situações que envergonham qualquer ser humano.
Repito.
O CM não é apenas isso e não merece.
Felizmente!
Abraço colegial
Nuno Monge (101 – curso 74/81)
Cuidado com afirmações do tipo "posso-vos assegurar que o puto não foi para o CM porque os pais estão com medo que ele falhe".
Uma afirmação certamente bem intencionada, mas que pode ser tão "complicada" para um aluno (ou candidato) como um vasilhame de Highland Clan... ;-)
Se as minhas contas estão certas o vosso curso foi graduado no meu 3º ano - um ano para esquecer.
Se as minhas contas estão certas, nestes vossos desabafos estão encontradas as razões para tantas anormalidades que se passaram na 2ªComp. naquele ano.
Se as minhas contas estão estão certas o animal a quem nunca perdoei as cargas de pancada que gratuitamente me deu é do vosso curso.
Se as minhas contas estão certas é do vosso curso o animal com quem um ajustarei umas contas com mais de 2 décadas de juros, creio que actualmente a nossa diferença de 5/6 anos de idade já não desiquilíbra a balança.
Exceptuando o que acima escrevi e se o tempo voltasse atrás tornaria ao CM sem qualquer dúvida.
Espero quando chegar a vez do meu filho ter capacidade financeira suficiente para lhe poder facultar a possibilidade de também ser um Menino da Luz.
Nuno Assunção
ex-78 / Biganga
Biganga,
o nosso curso foi graduado em 1984/85. Agora, como diria o Guterres, "é fazer as contas". Podes também ver a fotografia dos graduados do curso (procura no índice).
Custa-me imaginar um camarada meu graduado da 2ª a dar gratuitamente cargas de porrada, mas enfim, tudo é possível.
É certo que estes incidentes nos marcaram, como marcaram tantas outras coisas positivas e negativas, mas daí a considerá-los a origem de quaisquer anormalidades vai alguma distância.
Na reunião dos 25 anos de entrada do Curso de 1977/85, em 2003, houve um breefing no Auditório, em que foi visionado um CD relembrando fotograficamente muitos e variados momentos do Curso, e também foi visionado em vídeo, uma intervenção de uma Sra. Deputada do PP na Assembleia da Republica, (que me perdoe por já não me lembrar do seu nome), evocativa da Comemoração dos 200 anos da Fundação do Colégio Militar.
Nessa intervenção, a Sra. Deputada - por sinal, mãe de dois alunos do CM - referiu a dado passo que o Colégio é auto-regulador e auto-regulado.
Ou seja, possui e possuirá sempre, as ferramentas humanas e de qualquer outro âmbito, necessárias e suficientes, para se auto-equilibrar, auto-preservar, auto-modernizar.
Essas ferramentas éramos nós, eram os camaradas que nos antecederam, são os camaradas que actualmente cumprem o seu tempo e marcham pelo Colégio.
... e serão inevitavelmente os futuros camaradas que tenham a coragem de querer pertencer ao Colégio - porque é tanga, aquela velha história de “o meu pai obrigou-me a vir para o Colégio”; só entrou e entra, quem quis ou quer - optimisticamente sentindo que serão bastantes em tempos vindouros, após o Colégio conseguir atingir um novo equilíbrio e posicionamento na Sociedade e Cultura Portuguesas.
Os alunos fazem, sem dúvida, o Colégio.
Chegou-se a ouvir dizer: “Os graduados fazem o Colégio.”
Talvez seja mais avisado considerar que TODOS os alunos - e não só os graduados - caracterizam num dado momento, e moldam e transformam o Colégio.
Bons, maus, fortes, fracos, básicos, sofisticados, cosmopolitas, provincianos, castiços, fleumáticos, ecléticos, desportivos, redondos, quadrados, brancos, pretos, activos, pró-activos, todos por um... sentimento comum.
O de, por um breve período da sua vida, ainda que talvez o mais importante na formação de um carácter, pertencerem a uma comunidade de irmãos, uma élite e uma mole humana, ligados pela necessidade, pela amizade, pela proximidade, pelo exemplo, pela honra, pela defesa de valores e pelo inevitável, e muitas vezes tortuoso, processo de crescimento.
Por outro lado, os irmãos, por mais próximos que sejam, também se batem, sofrem, se odeiam por vezes, discutem, discordam, debatem, competem....é o carácter dualista das relações fortes.
Quem lê diários, Calixtos, livros, sebentas, ordens de serviço, até os gatafunhos das portas das casas de banho, e outros documentos, sobre a vida colegial em meados do Século XIX, no início do Século XX, nas décadas de 1940-60, nas décadas de 1970-90 e na actualidade, encontra sem margem para dúvidas, realidades completamente diferentes.
No entanto, realidades ligadas por um conjunto de valores comuns, pelo menos a partir de um dado período (início do Século XX) em que o Colégio Militar revelava já alguma maturidade e estabilidade, como instituição.
Mas foram os Alunos que, pouco a pouco, foram gerando esse conjunto de valores. Com as boas e más experiências que acumulavam durante os períodos em viviam, o, e no Colégio. Porque se vivia o Colégio, e no Colégio.
Quando alguém de fora perguntava: De onde é que tu és? Onde é que vives? A primeira reacção instintiva seria dizer: Lisboa, Largo da Luz. Mas depois, racionalmente, verbalmente, corrigia-se para a morada de família.
Não confundir valores, com tradições.
Há boas e há más tradições no Colégio, e isto tem de ser dito, como as há no universo universitário, no mundo empresarial, no seio da Cultura e da Família, portuguesas - como células que são, da Sociedade.
Os valores do Colégio Militar são reconhecidamente válidos em todo o Mundo, de tal forma que muitas outras instituições de Educação Militar e Internatos não-Militares, em Portugal, e pelo Mundo fora, fundadas à posteriori do CM, adoptaram grande parte dos princípios, valores e apanágios que o caracterizam. Foi um "plágio" positivo. Que só nos deve merecer motivo de orgulho.
As tradições, nem todas são positivas, como aliás é de compreender. São de respeitar, até certo ponto, desde que não retirem ou depreciem a dignidade de quem as cumpra, ou seja por elas afectado.
Não confundir, por seu lado, tradições, com práticas.
A contribuição da Tradição e os valores, são como que, a Estratégia.
As práticas, são a Táctica.
Ora o Colégio assistiu a muitas adaptações filosóficas e não filosóficas, da teoria da Táctica - ou seja da aplicação prática dos valores de vivência em colectivo, educação, disciplina, espírito de corpo, camaradagem, patriotismo e cidadania.
Uma boas, outras aceitáveis, outras más, e outras deploráveis.
Julgo que ficou suficientemente ilustrado os resultados de más práticas - más Tácticas - afinal de contas, até porque na maioria das vezes, os resultados das mesmas, eram nulos ou quase nulos.
É esse o objectivo e o interesse de as expor. As boas e as más.
Porquê só as boas? Por acaso o mundo, cá fora, é um mar de rosas? Não, longe disso.
Mesmo que se conseguisse criar um Colégio utopicamente perfeito em termos de educação e práticas, será que isso, por si só, prepararia convenientemente um adolescente para entrar no mundo real, no maquiavélico mercado empresarial, na selva universitária, ao chegar aos 18 anos ao pára-raios da Cúpula e começar a “ver por cima do muro”?
Acordar consciências, relembrar esquecimentos, orientar agentes decisores, encorajar vocações, novas formas de servir, e, de dialogar.
Registe-se.
Nunca passei por algo tão grave!!!Felizmente!
Mesmo assim, sinto algo de parecido nas razões que me levaram a abandonar o CM e durante alguns anos estar de costas voltadas...
...há já muito que não estou!!!
Mas custa-me lembrar-me de 1 filho da puta que me roubou uns botões de punho que nunca mais vi, era graduado e eu confiei nele!...
...fui roubado e de nada serviu ao fim de tanto(2 meses) esperar fazer queixa ao comandandte da 1ª, pois ele (o ladrão)reprovou o acto desesperado que tive e fez-me a vida negra no ano seguinte pois reprovou e deu mais um ano do seu sabor ao meu curso pois passou da 1ªC. para a 2ªC. - espero que tenhas sofrido bem até hoje - mas não foi só a mim...
... e nas firmezas!!!!, além de tudo o que elas custam, ainda nos agredia por trás...murros, palmadas e pontaés!!! filho da puta! é o pouco que te posso chamar...
...o que me faz de bem o CM?, tanto lhe devo: amigos! amizades! valores! formação! educação! ser diferente em muita coisa! e muito mais!!!
foi deste modo que me comecei a afastar do CM, no 2º ano, mas ainda não sabia disso...
...o 3º ano foi complicado, mas os bons graduados ajudaram!
...no 4º ano tudo se perdeu!!!começaram os problemas e se calhar(?)os menos bos graduados não ajudaram e em vez de me aproximarem do CM fizeram com que eu ficasse cada vez mais longe...
...foi pena e eu escolhi um caminho que hoje não seguiria...a saída do CM!!!
mas não esqueço os homens a quem devo o bom (e o mau do CM), mas foram mais os bons(graduados)!!!
...só que os maus pesaram mais...infelizmente!
não descrevo o 4º ano de tortura que passei...foi demais para mim...se fui fraco? bem os outro ficaram...bem mas os outro não foram tão atingidos...se sou vítima? não, considero que fui rifado e o número a sair foi o meu!!!!
hoje estou com o meu curso sempre que posso, e ainda bem, jantamos todas as 1as 6as feiras de cada mês e só sei que perdi algo que nunca mais vou recuperar...
mas não perco nada mais!
casei, formei-me, sou licenciado, não posso usar o simbolo na lapela, pois o equipamento não ajuda, tenho dois filhos, lindos que amo e que vou ajudar a crescer e a sua educação que eu vou acompanhar terá dedo da formação que eu tenho e que o CM me deu!!!
nem todos os que não chegam ao fim são ruins!!!!!!!!! e sem valor!!!!!!!!! pois há muitos que chegam a graduados e nem o ar que respiram merecem!!!
ainda bem que o CM nalguns pontos mudou, bom para os que lá passaram depois de mim!
um abraço e um grande e eterno Zacatraz para todos do Raizes ex-255 de 1985, sucessor imediato do Capela
Sucessor do Capela:
God Speed e um grande Zacatraz!, é só o que me vem à cabeça no momento!...
É verdade... por falar nisso, alguém é capaz de pedir encarecidamente ao Exmo. Camarada Capela para ele nos contar finalmente "A Piada da G-3" ? ;-)
"Oh, Susana,
Não faça essa Careta,
Que eu vou prá Carregueira,
Nem que chova picareta!!"
Copyright Chagas Productions -1983 - Todos os direitos reservados.
Extraídos do álbum "As mais belas Canções de Guerra para matar o tempo dentro de uma Berliet, completamente encharcados e equipados com o M-63, enquanto chovia a potes na Carreira de Tiro da Carregueira - Novembro de 1983"
Dedicada ao nosso Major "Miltinho!" Fernandes
"Oh Susana,
não chores outra vez,
Que é desta que o Capela,
Conta a Piada da G-3!!!"
Copyright Chagas Productions 1983 - Todos os direitos reservados
(Do mesmo álbum atrás referido)
Dedicado ao nosso camarada Capela pela sua estoicidade e espírito de oportunidade - há 23 anos - à data de hoje, Outubro 2006 - que andamos para saber o raio da "Piada da G-3" !!!!!
Lembro-me de irmos numa "Berliet" para a Carregueira, e cada um inventava a sua versão da "Ó Susana...".
O Capela estava todo animado, até que eu inventei a quadra:
"Ó Susana,
Não chores outra vez,
Que é desta que o Capela
Conta a piada da G-3"
Por acaso (ou talvez não...) ele estava numa ponta e eu estava noutra, porque senão eu tinha levado com uma G-3 nos cornos... ;-)
Também foi dessa viagem a quadra dedicada ao Májó Fernandes:
"Ó Susana,
Não faça essa careta
Que eu vou prá Carreguêra
Nem que chova picareta"
Uma homenagem ao dia em que o homem disse que íamos fazer uma marcha "nem que chova picareta". Acabámos por não fazer.
Já agora, quando íamos nas traseiras das "Berliets" e algum carro parava atrás de nós, faziamos um ar perdido e perguntavamos-lhes para onde era o Líbano (acho que era a guerra que "estava a dar" na altura).
Isto é incrível!! Dois comentários escritos com o mesmo tema, as mesmas quadras, à mesma hora!!
isto é que transmissão de pensamentos...
Não queria estar aqui a ressuscitar a discussão mas, apesar de ser um leitor diário do blogue,não me apercebi dos comentários que o texto provocou.Só agora, com o mail a sugerir a visita bimensal,me pude aperceber da situação e ler todos os comentários.
Não são para mim novidade esse tipo de situações, não que as tenha vivido directamente, mas porque sempre ouvi histórias que relatavam casos como este.Ao longo dos 8 anos de Colégio, tive no meu curso vários casos "graves", daqueles que dão direito a interrogatório na sala,em privado.Contudo,nunca um interrogatório ou uma firmeza privada foram conduzidos com violência comparável com a da situação descrita. Existia muita pressão psicológica,muitos berros,muito barulho,alguns 45º mais fortes,uns abanões, mas nada que me leve a, passados tantos anos, querer vingar-me de um graduado, ou sequer lembrar-me dele por essa situação.
O Colégio mudou,ainda que possam continuar a haver excessos, mas esta é uma consequência da juventude dos próprios alunos.Fui graduado em Comandante de Companhia com 16 anos.É de esperar que, com esta idade, não sejam cometidos excessos, que não nos venhamos a arrepender de determinados comportamentos? Mas é este o modelo do Colégio, e traz com ele mais vantagens que aspectos negativos. Ainda bem para o Colégio que os excessos hoje cometidos não passam de brincadeiras próprias de uma camarata do I.O. quando comparadas com os que foram aqui descritos.
Todavia, e este é o verdadeiro motivo que me leva a escrever, não compreendo a necessidade de, publicamente, estarem a ser recordadas estas situações.Compreendo que se tratem de situações marcantes, que os seus protagonistas sintam a necessidade de falar sobre elas, mas este não é, definitivamente, o local mais apropriado.Qual é a necessidade de recorrer a um blogue, a que qualquer um tem acesso, para falar de situações passadas há 20 anos?Estes casos não devem ser ignorados,devem até ser recordados e debatidos, mas à mesa de um restaurante durante um jantar de curso,na associação ou noutro qualquer local mais recatado.
Falava-se neste blogue nos "Cyber-graduados", mas quer-me parecer que as novas tecnologias vieram também criar os "cyber - cantos dos graduados" e as "cyber - conversas de cagatório"( e o termo não é depreciativo, só o utilizo porque, pelo menos no meu curso,os cagatórios sempre foram palco de longas e intensas conversas sobre o Colégio).
Um abraço.
Ps- Apesar de recuperar algo do que o anónimo disse,não sou eu o visado pelos mimos e demais sinais de afecto resultantes do seu texto.
Em relação ao último comentador, espero que entendas que não é uma questão de ser o local adequado ou não, pois sendo um blog em que é discutido um tema e e tu te sentes tocado pelo mesmo deves comentar independentemente do que relatas (deverá estar inserido no tema), mas sim de um relato de uma situação que já foi "conversada" no meu curso e que eu me lembre é só mais um facto que de facto(!) se passou, tais como outros aqui relatados e que se calhar, por terem sido muitas vezes falados e relembrados fizeram com que os sucessores(e não só) a esses mesmos factos, com o tempo amadurecessem de forma diferente?, tivessem posturas diferentes, etc, há muitas coisas que mudam a nossa vida, é outro facto, é bom partilhar pois ajuda de muitas maneiras, quem ouve e quem desabafa, outro facto, todas as opiniões são válidas, mesmo as menos correctas ou sinceras, pois até com essas crescemos, falando por mim, coloquei o meu comentário algumas vezes junto de posts que me dizem algo, que me tocam mais, não acho os comentários desadequados e quando o forem de certeza que o Provedor do blog os retira e se este local não servisse para isto, para que servia? para o Chagas ter um monólogo? (cadê a vagina? que pelo menos com essa o monólogo vale a pena...) Espero que este meu comentário seja bem entendido, sem qualquer tipo de maldade, mas para que entendas 362/93 que para mim, o CM só cresceu e os seus graduados também, porque tudo o que tem e teve de bom e de mau é analisado, dentro e fora dos cursos, sem medo, sem fraqueza, mas com a intenção de que se torne cada vez mais forte e melhor...pois aí sim continuará a marcar a diferença...
um abraço Raizes
Não considerei, em local algum,qualquer opinião como menos válida, nem sequer coloco em causa a veracidade dos factos relatados, até porque, como já referi, desde sempre ouvi serem comentadas no Colégio situação similares. Reconheço ainda o mérito da discussão e percebo, sinceramente, a necessidade que os actores têm de comentar um filme em que participaram.Um verdadeiro filme de terror, estou certo.
Contudo,continuo a considerar que este não é o local mais apropriado para se discutir este tema.Este é um blogue público,que qualquer um pode ver.E não quero entrar em grandes teorias conspirativas,nem me parece que o SIS ande por aí,até porque agora se têm que preocupar com os independentistas da Madeira.Mas concerteza que há pessoas estranhas ao Colégio a ler estes comentários, e por mais que estas situações se tenham passado há 20 anos, influenciam de forma muito expressiva a visão que as pessoas possam ter do Colégio.Penso até que a imagem geral que alguém estranho ao CM tem, é de que uma escola militar será algo de duro e violento.Estas situações só servem para confirmar o facto.
Se a opinião final de quase todos os intervenientes é de que, apesar de uma série de episódios mais negativos, o balanço final é claramente positivo, então preocupemo-nos com o Colégio e tentemos não discutir estas questões AQUI. E note-se que acho muito bem que tudo isto seja discutido, só coloco em causa o local da discussão.
Mas percebo perfeitamente que não devam ter sido momentos fáceis, que ainda hoje se sintam revoltados com elas e que, por isso, não podem deixar de abordar o tema, seja onde for.Felizmente, os actuais alunos não terão, um dia, que se debruçar sobre histórias como esta.
Um abraço.
De um lado temos a instituição, do outro temos as pessoas.
A instituição tem mais de 200 anos de história, durante os quais recebeu e educou milhares de cidadãos. Se não consegue resistir a uma situação excepcional ocorrida há 23 anos, não sei o que vos diga.
As pessoas são pessoas que eu respeito, e que merecem (e precisam de) uma reparação pública e/ou privada por situações em que foram envolvidas e nas quais tinham, muitas vezes, 0% de culpa.
Não procuram vingança, porque senão descreviam os factos "tintim por tintim", indicavam os nomes dos culpados, e enviavam os links dos "posts" por e-mail para as famílias deles.
O que procuram então? Humanidade.
Se é verdade que na altura tínhamos 16 anos, hoje não temos. Se na altura por vezes não tínhamos a noção dos limites, hoje temos. Se na altura éramos jovens aventureiros e solitários, hoje temos mulher e filhos. Se na altura alinhávamos em "carneiradas", hoje sabemos demarcar-nos dssas situações.
Hoje sabemos que algumas situações do passado foram mal geridas. Hoje, os agressores que têm consciência vivem com o estigma de terem sido agressores, e as vítimas vivem com o estigma de terem sido vítimas. Todos fingem que já não se lembram, e são capazes de se cumprimentar e conviver no "3 de Março", mas as marcas estão lá.
Não quero que este "blog" seja o programa da Oprah, mas deixem-me dizer-vos que acho que já era tempo de algumas pessoas procurarem algumas pessoas e falarem com elas de alguns assuntos do passado. E pedirem desculpa.
Vai adiantar alguma coisa? Acreditem que vai.
Repito: Humanidade.
Não me parece tanto o estilo da Oprah, é mais um caso para o Dr Phill.
Abraço
Ninguém aqui afirmou que a Instituição podia estar em causa pelo simples facto de uma situação excepcional, como diz, acontecida há 23 anos, ser aqui relatada, apenas foi posta em causa a necessidade de ter que haver uma exposição pública da mesma.
Mais do que vontade de vingança, acredito que as pessoas que aqui escrevem sentem necessidade de abordar assuntos mal-resolvidos,situações com as quais ainda hoje não lidam, nem podem, de maneira pacífica.Mas não estou aqui para avaliar as intenções de ninguém e não o fiz.
Também acredito que discutir estes temas contribua para que se faça justiça e, mesmo 23 anos depois, há pessoas que merecem que esta seja feita, de forma pública ou privada.
Mas volto ao início, só ponho em causa a necessidade de o tema ser abordado desta forma num espaço público.
Vou ficar por aqui quanto aos comentários sobre o tema, até porque compreendo perfeitamente os protagonistas e a necessidade que têm de abordar o assunto quando surge a oportunidade, ainda que num blogue.Sei que o facto de este ser um blogue público é uma questão menor perante as marcas que ainda hoje muitos sentem, para além de ter noção que o "perigo" que daqui advém é muito relativo...
Parabéns pelo blogue que nos deixa sempre um pouco mais perto de tempos idos e pela incrível capacidade de memorização.Fico espantado como é possível recordar com tanta clareza episódios com mais de 20 anos.
Acho que li nos comentários a este texto a intenção do 15 de 75 de desistir do seu blogue.Se assim o decidiu, terá concerteza os seus motivos.Mas sendo esse o blogue colegial que mais admiro, sinto-me na necessidade de o referir aqui, como modesto pagamento das boas horas que me proporcionou e das recordações que me trouxe.
Obrigado aos 2 pelo tempo que perdem em partilhar a vossa vivência colegial.
Abraço
Viva Jags (ou Fozzi),
quero-te dizer que tens toda a razão no que dizes a meu respeito (Pardal) e nem sabes como lamento tudo o que aconteceu contigo. Mas se me safei naquela Jab Session foi TÃO SÓ E APENAS porque eu SABIA a que horas havia chegado à camarata, porque FELIZMENTE ali tinha regressado junto com o insuspeito 312-grego, que igualmente o confirmou. Fiquei dessa forma livre do (desse) pesadelo. Por isso e só por isso eu não fui afiambrado como o Alvin. E como disseste, naquela noite, os outros casos não vinham ao caso. Confesso que não me lembro de ti lá, mas com aquelas lâmpadas nos olhos era difícil "assistir" ao que quer que fosse "em primeira fila", como tu dizes (aqui erradamente). E inteligentemente ter confessado (não 30 mas cerca de uns 8 ou 9, porque foram efectivamente 8 ou 9) apenas me tirou qualquer peso na consciência para o que se pudesse vir a seguir (se isso nisso fui inteligente, concordo contigo). Mas não foi manobra. Aliás esse famoso rol só teve o condão de me transferir a partir daí para a lista dos suspeitos a abater, e tornar-me objecto de "missas" tão mais bárbaras e revoltantes do que as que tens descrito dos "Conas 1 e 2" (com todo o respeito), as quais vieram a ter lugar no ano lectivo seguinte e das quais provavelmente nem terás tido conhecimento. No fundo sabes bem da tua situação, mas não conheces da minha missa (e da de outros) o suficiente para concluires "ironicamente" sobre o que faço actualmente, ou deixo de fazer. Nisso o Alvin resume tudo de forma perfeita o que só o enaltece como homem. Mas talvez possamos abordar mais pormenores esclarecedores em futuro jantar, porque não? Talvez não saibas porque razão eu saí com única semana de graduado...
De qualquer das formas tudo está há muito ultrapassado e, como se diz em direito, prescrito. Graças a Deus! Esquecido, claro que não!
Um abraço para o Alvin, para ti, Fozzi, e para todos os demais.
JAGS - Fózi - 401/77 diz:
Pardal (Gordo),
Quando disse que estava em primeira fila, é porque estavas.
Se não te lembras, eu refresco-te a memória.
É fácil, imagina a sala de leitura da Quarta em Janeiro de 1983, estás a vê-la?
Eu estou, perfeitamente.
Se estivesses de frente para a porta de entrada, ao lado esquerdo, havia um móvel com um amplificador/tuner e um Deck de cassetes da MARANTZ.
Na sala de leitura, havia uma mesa grande com cadeiras à volta, umas mesas mais pequenas com quatro cadeiras cada e uns bancos corridos junto à parede.
Enquanto me enchiam a mim e ao Alvin de porrada, tu estavas sentado num desses bancos.
Da tua posição à minha, enquanto gramava no focinho, iam uns 3 a 3.5 metros, e estavas às minhas 10h00, isto do meu ponto de vista, no local de "impacto".
Não haviam luzes apontadas a ninguém nessa noite. Apenas as luzes de cima da sala de leitura, as quais estavam todas ligadas.
E lembro-me disto tudo, porque nessa noite por inúmeras vezes te observei, pelo canto do olho, enquanto paulatinamente levava porrada.
Pensava: "Eh, pá, que inveja, quem me dera estar ali sentado, como aquele gajo!... Estou aqui há horas em sentido, a levar na tromba, não posso nem consigo me mexer, e cada vez que tento dizer alguma coisa, ou me berram aos ouvidos ou me batem ou as duas coisas em simultâneo, seja o que for que diga... o que é que aquele gajo lhes terá dito que o terá safado da sova que estou para aqui a levar?..."
Mas finalmente entendi: Tinhas um álibi ! O 312.
Mas não deve ter chegado, e de caminho deves ter dito, para reforçar a tua honestidade: Oh pá, só para verem que eu não tenho nada a ver com isto, faço-vos o rol das merdas todas que gamei desde que entrei para o CM, agora, por favor não me batam, pronto!
Eu não tinha um álibi fidedigno.
Também não tinha um rol pomposo e credível de gamanços para apresentar, porque mesmo que fizesse uma lista exaustiva de todas as Ginas, Penthouses, Escorts, Hustlers e Playboys que gamei ao Crónico, da bolama que rapinava à Kika, e do Nívea After-Shave Bálsamo que subtraía em doses sub-reptícias mas regulares, ao Gordo-Chulo, esses items não tinham relevância dramática nenhuma e ainda me arriscava a ser julgado pela “Inquisição Espanhola” como um pervertido sexual, um glutão compulsivo, ou um pelintra preguiçoso: “Guilty! Guilty! Guilty!...As charged!”
O meu alibi “era” o principal suspeito e por sinal até nos dávamos bastante bem, na altura. Por um mal-entendido qualquer, nem sequer as nossas histórias batiam certo uma com a outra. Poderiam bater certo?...
Quanto ao rol de 30: não o li expressamente, apenas observei de relance, uma página A4 com bastantes itens descritos, mas se calhar, não era uma listagem de situações, mas sim de datas, locais e objectos. O meu pedido de desculpas pelo exagero.
Quanto aos mistérios, enigmas e situações pouco conhecidas que afloras no final do teu comentário: Se não tiveres medo de falar abertamente sobre elas, passados 24-25 anos, em nome da verdade e da paz de consciência, força! Quem ou o quê te assombra?
Se, achares por bem, não comentares mais nada em concreto, decerto os camaradas entenderão.
Um abraço.
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