sábado, outubro 21, 2006

"Área Reservada"

A adolescência traz geralmente consigo a necessidade de testarmos os nossos limites e/ou impressionarmos os outros, o que implica quebrar regras e correr riscos desnecessários.

No Colégio, esta característica era exercitada através de um conjunto de actividades "piratas", tais como "cavanços" (muitas vezes só "porque sim") e passeios diurnos ou nocturnos a locais onde a presença de alunos não era autorizada ("Áreas Reservadas").

Cada aluno tinha o seu "perfil de risco", ou seja, uma tipificação das actividades não autorizadas cujo risco estava disposto a suportar.

Nível Zero - os alunos deste nível não estavam dispostos a correr qualquer risco. Havia sempre uma dor de barriga que os impedia, à última hora, de se juntarem ao resto do grupo...

Nível Baixo - os alunos deste nível estavam dispostos a correr riscos que representassem punições até 10 pontos. Dava para levar um olhar "de través" por parte do pai, mas provavelmente ainda dava para ter "Bom" em comportamento.

Nível Médio - os alunos deste nível estavam dispostos a correr riscos que podiam chegar ao "Suficiente" em comportamento, com a consequente perda das medalhas (se fossem candidatos).

Nível Elevado - os alunos deste nível estavam dispostos a correr riscos que podiam chegar ao convite para sair ou à expulsão.

Havia factores que permitiam reduzir o nível de risco, nomeadamente:

1) Ser filho ou neto de Alguém, ou estar acompanhado pelo filho ou neto de Alguém;

2) Ter o "cadastro" mais "brilhante" do que o chão encerado do Paço Ducal de Vila Viçosa (no qual eu me "espalhei" numa visita de estudo no 2º ano, tendo partido a minha máquina fotográfica);

3) Escolher adequadamente a data e a hora para a transgressão, em vez de a fazer "por impulso".

O nível de risco que eu assumia era, na generalidade, baixo. Sempre quis ser tratado como um "homenzinho" pela minha família, e isso implicava apresentar um comportamento responsável e tentar aparecer todos os anos em casa com mais uma medalha. Nas poucas ocasiões em que assumia mais riscos, tomava geralmente algumas medidas associadas ao factor 3 acima indicado, de forma a minimizar a possibilidade de desfechos "dramáticos".

O meu acto mais arriscado no Colégio terá possivelmente sido a "reportagem fotográfica" no telhado (publicada nas Memórias do Baú nºs XXIX, XXX e XXXI). É pouco, eu sei, mas foi o que se arranjou... ;-)

12 comentários:

Jags disse...

Realmente, nomeadamente o "Cavanço", era um dos actos mais frequentes de transgressão face ao Regulamento.

Em caso de flagrante delito, a punição normal esperada, eram os 25 Negativos da praxe, "SUF" a comportamento, e o puxão de orelhas até ao Oficial de Dia.

Ficou célebre, um dado "Cavanço" ...

...já não me lembra quem foi, mas acho que se tratavam de alunos dois ou três anos mais velhos que nós,

...era já noite avançada e do lado de fora do muro em frente ao Internato, estava um Polícia da PSP parado na Calçada no decorrer do giro normal.

... do lado de dentro e sem que se apercebessem da presença do Polícia, dois camaradas preparam-se para "cavar" - saltar o muro - mas para terem as mãos livres - atiram os "Sacos Pretos" (Saco-mochila de modelo colegial destinado a transportar os itens normalmente necessários para o fim-de-semana), a voar por cima do muro.

... estes, por sua vez aterram caprichosamente um de cada lado das pernas do Polícia, que coitado, apanhou um "cagaço dos antigos", acompanhado provavelmente de uma borradinha malandra, nas brancas cuecas de serviço...

... seguidamente, e quais Homens-Aranha, aterram os dois marmanjos na calçada, junto aos Sacos, mas já o Polícia se tinha apercatado e colocado escondido atrás de um poste próximo, os agarrou prontamente pelas orelhas e os levou à porta de Armas para se apresentarem ao Oficial de Dia.

Mito, lenda, ou não, era uma história que quando contada pelos "Crónicos do Costume", dava sempre azo a muitas e agradáveis gargalhadas.

Mas temos aqui alguns participantes activos do Blog, autênticos "Técnicos-Mestres do Cavanço".

Cheguem-se à frente... ;-)

Jags disse...

Mas o Cavanço que ficou mais célebre no nosso curso, foi aquele cavanço em massa no 6. Ano para "resolver" um assunto de ajuste de contas com uns salafrários de Benfica, que uma semana antes tinham sovado dois camaradas nossos do 7.Ano, numa dada rua.

Numa só noite, a seguir ao jantar, cavaram cerca de 100 Alunos, entre graduados, alunos dos 6. e 7.Anos, e mais dois ou três "potentes" do 5. Ano escolhidos pelas suas aguerridas capacidades de bruto-ball. Estamos a falar 1/6 do Batalhão!

Foi obra!... qual STALAG 17 ? (a fuga mais célebre da II Guerra Mundial), qual fuga dos PIDES?!...

... naquela noite fez-se história... de cordel.

Tudo correu mal desde o início.

...desde a organização do evento - descoordenada e orientada apenas para a demonstração de força pelos números, em vez da eficácia das acções planeadas - ao decorrer das movimentações de rua, às lamentáveis confrontações à pedrada - qual "Intifada" precoce;

...à célebre estratégia do "Martelo" - defender a rectaguarda a todo o custo rapidamente e em força (usando para isso, uma técnica híbrida da Técnica do Arantes, em que corria como um Morcego a fugir do Inferno, batendo com os pés no cú até doer);

...e ao infortúnio de alguns camaradas no decorrer da operação, nomeadamente de um ter sido atropelado por um carro, e outro deles, inclusivamente ter sido preso temporariamente, por estar em uniforme camuflado e com um cano serrado em bico na mão, se não estou em erro.

Mas o pior ainda estava para vir...

Quando o “Corpo Expedicionário”, duvidosamente glorioso, começou a saltar o muro de regresso ao Colégio, estava o Sant’Ana Pereira, na altura o TC, à espera dos “Legionários”, mas não era para os condecorar por Actos Heróicos Além-Mar! Era para os lixar, e bem...

Os que ele não apanhou junto ao muro, veio depois apanhar calmamente, à porta das Camaratas, a entrarem sorrateiramente, recebendo prontamente o respectivo “calduço” e puxão de orelhas da praxe.

Nunca entendi, porque é que isso sucedeu, dado que o Cavanço foi organizado com o aval e a participação dos graduados, nomeadamente os dois filhos do TC, ambos Comandantes de Companhia (3ª e 4ª). Traição parricida? Ou para salvar a face oficial devido aos problemas que tinha havido na rua?

Ficou nessa noite igualmente célebre, a Cantada do Artista - qual Ilíada, qual Odisseia, qual Eneida, quais Lusíadas? - de autoria do Martelo, sobre o decurso e resultados da “Batalha”... o que nós gargalhámos nos tempos subsquentes!... um prato! Uma pérola!

No dia seguinte, Sexta-Feira, 4ª Companhia formada no Campo de Futebol, manejo de arma Mauser cerrado, durante duas horas, a toque de caixa e gritaria de megafone a fazer distorção, da qual ainda me lembro um excerto: “ ...os Srs. Alunos... serão punidos até ao máximo da minha competência!! Dou a minha palavra de Honra!!!”....

Bom, acabaram por não ser...

...ficou-se tudo por um punição de privação de saída durante uns fins-de-semana para os que se deixaram apanhar e uma admoestação verbal agravada, para os graduados. Nada mau, vistas as coisas!

Lá está a contribuição do Factor 1 que o Chagas referiu.

O que foi interessante, é que no decorrer do cumprimento dessas privações de saída de fim-de-semana, existiram um conjunto de circunstâncias que levaram à criação do famoso “Grupo da Copa”... com muito mais alto nível de eficácia e produtividade. Embora com fim igualmente tragi-cómico...

... mas isso é outra história ;-)

Pedro Chagas disse...

Houve um excerto do discurso que ficou famoso, pelo que foi dito e pelo que não foi dito: "... houve um graduado da quarta que foi atropelado... houve um graduado da quarta que foi preso...", ao que a malta posteriormente acrescentou "... houve um graduado da quarta que fugiu...".

Isto era o que se dizia, porque eu (vá-se lá saber porquê...) não estava lá para ver.

Pedro Chagas disse...

Jags,

assim à primeira vista, não vejo qualquer incompatibilidade entre "serão punidos até ao máximo da minha competência" e o resultado: zero pontos de punição... ;-)

Anónimo disse...

"...ficou-se tudo por um punição de privação de saída durante uns fins-de-semana para os que se deixaram apanhar" sendo que a punição maior foi precisamente para os que "não se deixaram apanhar"

Jags disse...

Bicos,

Conta aí... então não te apanharam, mas deram-te na punição de privação de saída na mesma? Como foi? Tiraram o teu n. por faltares na camarata?

Realmente, tu eras dos que também tinha um Score incrível de sucesso em questões de "desenfianço"...

Para as punições (poucas) que tiveste, venha de lá o Diabo, e conte quantas fizeste ;-)

Olha esta, já te vais lembrar!...

Logo no 1. ano, nós dois tomámos de "assalto" a piscina na última noite do ano lectivo, e comemorámos com uma banhoca de meia-noite, "espectacuLUAR"...

O problema foi que, estávamos nós a dar o terceiro ou quarto mergulho, e apareceu um vigilante sorrateiramente a subir por escadote de alumínio num dos muros exteriores da piscina e só tivemos tempo para sair da água, pegar nas nossas coisas e dar às de São de Diogo, correndo nus e molhados, com as calças na mão.

Quando chegámos ao muro e verificámos que tínhamos de saltar no escuro de uma altura de 4 m, a coisa virou um bocado para a Fé Religiosa de cada um: "Seja o que Deus quiser, gritámos, e “Aí vou euuuuu-u...! Pum!" - estatelámo-nos...

Caímos estrondosamente nas sebes do jardim ao lado da piscina, e, a mancar descompassadamente, atravessámos a estrada de alcatrão, descalços, e enfiámo-nos num arbusto junto à Quinta, até o susto passar.

E não é que "alguém" deixou lá uma bota de atanado, esquecida na piscina?...

No dia seguinte, voltámos lá, logo a seguir ao almoço.

Já não me lembro se foi para ir buscar a bota, ou se foi por puro gozo... de qualquer forma, fomos.

A banhoca correu bem e as operações de entrada e saída também, desta vez, de dia, e com saltos mais bem preparados, com nuances de "páraquedista"...

O local que escolhemos para nos re-introduzir no Internato, foi uma porta que deixámos propositadamente mal fechada nos Balneários da Primeira.

... e então não é que estava um Sr.Vigilante à nossa espera? Ahhhh! Frustração!

"Shores Alunos, os bossos númbaros, se fach fabôore!!..."

Bom, com as faces mais coradas que tomates de horta em Agosto, lá demos os nossos números e logo a seguir corremos para o pavilhão do Carioca...

O Orfeão, no qual ambos tomávamos parte, na 1a. Voz, ia começar a actuar perante os nossos Pais e Oficiais, em cerimónia de Fim do ano lectivo, dali a minutos.

Já não me lembra bem qual era o repertório nessa tarde, mas quem nos ouvisse aos dois cantar fininho, tão fininho, podia adivinhar o quão apertadinho o nosso rabinho estava...

Felizmente, o vigilante era um porreiraço e nunca comunicou a nossa "aventura" superiormente...

Mas passei essas Férias Grandes a ir à caixa do Correio à espera dos "Negativos", que até hoje (ainda) não chegaram...

Pedro Chagas disse...

Se os "Negativos" tivessem chegado, serias o operário mais novo do estaleiro... ;-)

Anónimo disse...

A minha religião não me deixa ser eu a contar os pormenores dessa noite. Posso apenas dizer que seria uma "vendetta" por uma noite anterior e uns copos a mais do Tibi (avisa-se o menino biribiri...) de que eu e mais outros também se lembrarão (cheguem-se á frente, eu não posso revelar o meu passado pecaminoso)
Quanto á noite propriamente dita, o que fizemos, eu e outros, faria o agente Sam Fisher corar de vergonha porque ele ainda não aprendeu a caminhar por uma parede, ainda por cima com um lindo chapéu enfeitado com uma longa... pena (o Salgueiro que conte, ele sabe, eu não posso...)
Quando finalmente chegamos á cama (undetected) tivemos que levar com um discurso do martelinho (coitado) que rezava assim "...esta noite houve alunos do colégio que fugiram e abandonaram outros alunos do colégio em maus lençóis. Esta noite foi uma noite de vergonha... blá blá blá..." Ainda não parei de vomitar ao longo destes anos todos.

O resultado para mim foi exemplar: Quatro fins-de-semana por não estar presente na contagem na camarata enquanto camaradas meus levaram Um por serem apanhados em flagrante a "cavar"... Ao menos tive o prazer de ver o Carneiro "atropelar" um Mini... e depois tossir sempre que o Martelinho passava por mim na "seca" sem ele ter lata para fazer nada.

Querem saber o que á cavar "em grande estilo"? Mas muito grande mesmo? Peçam ao Buracos que conte (é inacreditável...)


Já agora e se me estiver a ler peço ao (Grande) Morais que me explique o que é "Nível Elevado" ;-)

Anónimo disse...

Só mais uma aparte, Fózy, acho que foi contigo, numa linda noite quente de verão em fomos á lá "Sam Fisher" até á piscina, estilo avança um, observa o terreno, avança outro... um mimo. Subimos em silêncio até á piscina e fomos tomar uma "banhoca". Tudo isto com o cuidado de não emitir qualquer tipo de som e não produzir qualquer ruído (se o professor de IM nos visse tinhamos 20) tínhamos o cuidado de nadar de bruços para não interromper o silêncio. Até que... Bom, chegou uma corja de p'raí uns duzentos energumeros que começaram a mandar bombas e gritos e mandar amonas (lembras-te Potente?)...

"shores Alunos, não fujam, shores Alunos, eu shei quem shois..."

Jags disse...

Foi comigo, foi. Julgo que se trata da mesma ocasião relatada há 3 comentários atrás.

Realmente, após termos chegado, a coisa por algum motivo tinha-se espalhado na Camarata e apareceu uma carrada de pessoal, que com a fuçanga de entrarem na água, esqueceram-se de puxar a escada de alumínio para cima tendo ficado encostada do lado de fora do muro, a dar bandeira.

Foi o mesmo que entregar o ouro ao bandido...

Um vigilante vinha a passar durante a ronda habitual, e pensou:

"Olá, o que faz a escada do Ginásio encostada ao muro da Picina, numa linda noite quente de Berão,hum? Ontem chobeu?!?... Deixa-me cá subir e dar uma espreitadela... AAhh, seus Madraços!..."

E quem se esqueceu de uma Bota de Atanado lá na piscina?

Anónimo disse...

Olá malta,
Incrível como o Bicos ainda se recorda do meu chapéu com uma pena. Também não é difícil porque eu, já que o tinha na cabeça, era provavelmente a única pessoa que não o via num raio de 100 metros. E não pensem que era uma chapéu tipo Robin Wood, ou do género John Wayne após desbaratar algumas centenas de peles-vermelhas. Era mais uma mistura de ceifeira alentejana com um tinteiro Mont Blanc na cabeça. Caramba! Até me arrepio de pensar nisso. Acho que os gajos da Mont Blanc ficaram lixados e ainda hoje evito o Baixo Alentejo.
Houve também um célebre raid nocturno à Reprografia (?), numa missão de busca e copianço de um teste que ameaçava arrasar as médias e que ia correndo mal. Ficámos "horas" deitados nas prateleiras de um armário metálico, enquanto o funcionário tirava fotocópias a dois metros de distância. O mesmo grupo operacional participou também num raid ao pavilhão de química e física, numa missão idêntica. Esse raid ficou tristemente célebre, porque hove material pessoal e intransmissível que inadvertidamente foi retirado de uma gaveta.

Jags disse...

De um corta-unhas, um colegial desenrascado podia fazer uma gazua, uma chave de parafusos, um abre-latas, um chino, um Shuriken, um berimbau, um instrumento de tatuagem (não é, Durão?), uma colher para o Yogurte (eufemisticamente), ah, e também ocasionalmente, servia para cortar as unhas...

Deixem um destes colegiais operacionais, no meio do deserto com uma Caixa de Pequeno Equipamento, e voltem dali a 5 anos. Encontram,... Las Vegas.