As Nossa Mães
Há geralmente uma coisa que "mexe" com qualquer homem que se preze, especialmente se tiver uma ligação aos meios rurais: um insulto à sua mãe. Quantas vezes ouvi falar em militares que se envolviam em rixas porque, no meio de uma "inofensiva" troca de insultos, alguém lhes chamava "filho da p***", e aí o caso mudava de figura, porque um insulto a si próprios ainda aguentavam, agora um à sua mãe é que não.
Isso é uma fraqueza. Um militar tem que aguentar situações de tensão, como acções de manutenção de paz em cenários bastante complexos, e não se pode "ir abaixo" porque alguém insultou a sua mãe, até porque é garantido que alguém o vai fazer.
No Colégio aprendia-se cedo a separar o texto do insulto do objecto do insulto. Se eu chamasse "filho da p***" a um camarada, não estava a insultar a mãe dele, que nem tinha o prazer de conhecer, estava a insultá-lo. Se ele não gostasse de ser insultado, que reagisse, mas não havia paciência para conversas do tipo "insultaste a minha mãezinha".
O que também se aprendia cedo era a desvalorizar os insultos e as palavras que os constituem. Nas primeiras semanas aprendiam-se todos os insultos que havia para aprender, insultos esses que, depois de muito usados, perdiam o "valor facial" e deixavam de ter a carga dramática que tinham cá fora. No Colégio, ninguém andava à pancada por causa de palavras; ninguém se sentia insultado com palavras. Às vezes, até havia alguns que ficavam com alcunhas que eram palavras usadas em insultos, e pediam aos camaradas "é pá, não me chamem isso lá fora, ok?".
Por isto, reagi com naturalidade ao documento com as letras obscenas que os alunos alegadamente cantavam sobre as mães, e que é uma das peças em que se baseia a "cruzada" que um jornalista da RTP está a fazer contra o Colégio. Para mim, é tão irrelevante como a letra que descreve o relacionamento entre o Calimero e a Abelha Maia, que eu tantas vezes "fui obrigado" a cantar na formatura, quando fiz a recruta na Força Aérea.
No Colégio, só é sensível a este tema quem não gosta de lá andar e quer sair. Para isso, basta escrever as letras num papel, mostrar em casa, e a mãe diz "malandros, obrigam o meu filho a cantar isto" e tira-o de lá. Objectivo atingido. Ou então quem faz asneira e, para se safar, se desculpa com as letras obscenas que o obrigam a cantar.
Percebo e respeito as pessoas que se sentem ofendidas pelas palavras, mas são só palavras, e cada pessoa, cada cultura e cada contexto dão às palavras um valor diferente. É como o valor da nudez em público para uma Irmã Carmelita ou para uma frequentadora da Praia do Meco. E nós, às palavras que geralmente constituem os insultos, não dávamos valor.




















