terça-feira, fevereiro 19, 2008

"Isto Não Define Quem Sou" (Parte II)

Continuação de "Isto Não Define Quem Sou" (Parte I).

O Pedro teve um percurso colegial o mais normal possível, com alegrias, decepções, histórias engraçadas, medalhas, punições, etc.

Aprendeu cedo a guardar para si um aspecto particular da sua maneira de ser. Poderia partilhá-lo com alguém? "Deveria haver alguém de absoluta confiança com quem se pudesse falar, e eu nunca senti que houvesse. O Capelão? Católico. Os Graduados? Bye-bye Colégio. Professores? Confiar em quem?"

O assumir foi um processo longo. "Quando saí do Colégio precisei, acima de tudo, de me descobrir. Não foi imediato, nem fácil, e durante bastante tempo afastei-me dos meus camaradas. Penso que é natural, acontece por muitas razões. Também não adoptei uma atitude exibicionista. Basicamente, segui a minha vida."

"Houve um grupo do meu curso que manteve contacto intenso nos anos pós-Colégio. Isso tornou relativamente fácil os 'rumores' espalharem-se que nem fogo. Finalmente, num jantar de curso, confirmaram-se os rumores. Penso que alguém me perguntou abertamente aquilo de que já se desconfiava e eu confirmei."

"Como é que reagiram? Houve de tudo. Note-se que o meu afastamento da malta e os 'rumores' que iam ouvindo, deu-lhes algum tempo para se habituarem à ideia. Em geral, o silêncio foi a resposta inicial. Não tenho quaisquer ilusões sobre o que muitos acharam na altura, mas também não era a preocupação principal da vida deles. E pouco a pouco, com alguma persistência minha, foram-se vencendo algumas barreiras e agora, em geral, a atitude é de 'detente cordiale'. Continuo a provocar, espero que de maneira algo didáctica, a tentar que estejam mais à vontade com o assunto, e, em geral, penso que passou a ser um assunto menor, como eu gosto que seja."

"Eu reaproximei-me porque, queira ou não, vejo-os como família e sinto a falta de muitos deles, nem que seja de vê-los uma vez por ano. Tem sido um processo moroso, mas eu não estava disposto a abdicar do meu passado para viver o meu futuro."

Como é que o Pedro vê o Colégio da actualidade? "É altura de todos aceitarmos que, acima de tudo, o bem estar físico e mental de um aluno é superior ao interesse da Instituição. Penso que só quando aceitarmos isto poderemos reverter o declínio do Colégio. O Colégio tenta 'impingir' que é a nossa Casa, mas que raio de casa é esta que expulsa os seus filhos por serem quem são? É cruel. Acho que deve haver mais tolerância. Aceitar não é promover, é aceitar. E acima de tudo, apoiar quem precisa."

"O Colégio é tanto meu como de qualquer outro ex-aluno. Foi a minha casa durante oito anos. Tenho direito à minha voz dentro da comunidade de ex-alunos. Representei o Colégio enquanto aluno e continuo a representá-lo enquanto ex-aluno. Sou diferente dos outros ex-alunos, mas da mesma maneira que somos todos diferentes, ou seja, não valorizo a minha diferença."

"Não quero ser paladino de coisa nenhuma, eu gosto de paz e sossego, mas também não quero fugir de nada. O Colégio ensinou-me a ter coragem para ser quem sou e a não fugir de uma luta, por muito grande que pareça."

2 comentários:

sqar disse...

Isto já é praticamente serviço público de informação.
Parabens.

Anónimo disse...

Conheço o Pedro há alguns anos e ler esta fase da sua vida foi muito interessante. O Pedro é um daqueles (raros) amigos que me ficaram ao longo da vida e que prezo muito. Verdadeiro amigo. Bem hajas Pedro.