terça-feira, outubro 21, 2014

Memórias do Baú CXXXIV - Os "Ratas" - O 2º Pelotão


Esta semana os "Ratas" de 1984/85 vão ao Colégio comemorar os 30 anos de entrada, por isso fui ao baú procurar memórias que ainda não tivessem sido publicadas.

Esta fotografia do 2º Pelotão foi tirada pelo 151-Barreiros, o eterno "baldas" à Parada, no mesmo dia da que foi publicada nas Memórias do Baú CXIX - A 1ª Companhia 1984/85.

A legenda nas costas diz: (da esquerda para a direita, fila a fila) 357, 439, 431, 499, 256, 420, 491, 278, 394, 462, 498, 495, 408, 363, 360, 488, 383, 494, 368, 269, 261, 257, 490, 427, 486, 432, 133, 397, 487, 307, 250, 489, 392, 493, 403, 461, 496, 404, 264 e 364 (clicar na imagem para ver uma versão com maior definição).

Felizmente vou tendo a oportunidade de ver alguns deles nos "3 de Março", mas há outros que já não vejo há muitos anos, e muitas vezes me pergunto o que será feito deles. Ficou uma ligação especial àqueles que eu sempre designei como "As Minhas Crianças".

sexta-feira, junho 13, 2014

O Ministério da Defesa Nacional Escolheu Fazer

O Ministério da Defesa Nacional escolheu fazer um vídeo intitulado "O Ministério da Defesa Nacional Escolheu Fazer".


Em tom irónico, o filme dirige-se aos que alegadamente criticam o Ministério por fazer reformas e confirma que sim, têm razão, o Ministério é culpado de fazer uma série de coisas, que são epicamente descritas, sem esquecer uma mensagem especial para certos "inimigos de estimação" do Ministro: "pela primeira vez há raparigas no Colégio Militar".


Até parece que estou a ver os autores do guião a escrevê-lo, os mesmos que trabalharam a campanha de um autarca a quem foi recentemente concedida a Medalha da Defesa Nacional por coisa nenhuma... o país é mesmo uma aldeia.

O filme, que podem ver neste link, é feito em estilo de campanha eleitoral, e não é de estranhar que tenha sido publicado em 19 de Maio, em plena campanha eleitoral para as eleições para o Parlamento Europeu.

Ou seja, em plena campanha eleitoral, o site do Governo e a conta do Governo no Youtube publicaram um filme em estilo de campanha eleitoral, pago com o dinheiro dos nossos impostos, destinado a sublimar a obra de um Ministro e a atacar os seus adversários. Porque é que nada disto me surpreende?

Naquilo que me interessa directamente, que é a alegada reforma dos Estabelecimentos Militares de Ensino, o filme esqueceu-se de referir o encerramento do Instituto de Odivelas, uma escola com um ensino de excelência e com 114 anos de história, sem sequer lhe dar uma hipótese de demonstrar a sua viabilidade. As raparigas que hoje frequentam o Colégio Militar não são as Meninas de Odivelas, são alunas que entraram directamente para o Colégio Militar; as Meninas de Odivelas e a educação ímpar da sua instituição foram declaradas extintas com um rabisco de uma das Montbancs do Ministro sem sequer terem uma oportunidade de se defenderem, e têm lutado na rua pela continuidade da sua instituição. E seria também interessante referir no filme a forma atabalhoada como o Colégio Militar está a ser obrigado a mudar radicalmente o seu modelo, mudanças que podem levar à sua destruição.

quinta-feira, março 06, 2014

A Destruição do Instituto de Odivelas


"You can wipe out an entire generation, you can burn their homes to the ground, and somehow they'll still find a way back; but if you destroy their history, you destroy their achievements, and it's as if they never existed. That's what Hitler wants, and is exactly what we're fighting for." (personagem desempenhada por George Clooney no filme "The Monuments Men").

O início do próximo ano lectivo determinará se o Instituto de Odivelas ficará reduzido a escombros ou a pó.

É no início do próximo ano lectivo que vamos perceber porque é que os pais puseram as filhas no Instituto de Odivelas, se foi para que as filhas usufruíssem das características de um modelo de educação com 114 anos de provas dadas, ou se foi para que elas tivessem uma farda e formaturas.

Se os pais puseram as filhas no Instituto de Odivelas pelo segundo motivo, então deixá-las-ão ir para o Colégio Militar, onde terão outro número, outra farda, outra cultura, e problemas de integração numa instituição que se salva da extinção imediata, mas cuja reacção à reestruturação decidida pelo Ministro da Defesa Nacional fará com que estas não se sintam bem-vindas. E terão ainda que acumular muitas milhas de autocarro, já que, perante a óbvia impossibilidade de ter em tempo útil um edifício para o internato feminino, e obstinado em manter aquilo que designa como uma "fusão", o Ministro da Defesa Nacional determinou que as alunas que queiram manter-se em regime de internato serão transportadas de autocarro para o Colégio Militar todas as manhãs, regressando ao fim do dia.

Se os pais puseram as filhas no Instituto de Odivelas para que estas usufruíssem das características de um modelo de educação com 114 anos de provas dadas, então irão certamente reconhecer que não há qualquer alternativa credível, e escolher outra escola onde as suas filhas prossigam os estudos, idealmente uma escola local onde as alunas possam manter o contacto.

Quantas alunas do Instituto de Odivelas se apresentarão no Colégio Militar no início do ano lectivo? E quantas chegarão ao fim? Seja qual for o número, o que é inequívoco é que a "fusão" do Instituto de Odivelas preconizada pelo Ministro da Defesa Nacional não passa de uma destruição pura e simples de um património centenário. Perdem as alunas, perdem os pais, e perde o País. O Ministro da Defesa Nacional esfrega as mãos de contente (porquê?), e o Primeiro-Ministro, a Assembleia da República e o Presidente da República "assobiam para o ar"...

sexta-feira, outubro 25, 2013

Não Recomendável

A Ordem dos Arquitectos considerou Não Recomendável o "Concurso Público para a Aquisição de Serviços para Elaboração do Projecto de Execução para a Construção do Edifício para Internato Feminino no Colégio Militar e outras Instalações de Apoio". Considerou a Ordem que "o procedimento contém dissonâncias quanto à interpretação da legislação aplicável" (link).

Parece que este processo de reforma dos Estabelecimentos Militares de Ensino (EME) não consegue ter mesmo nada que seja recomendável.

Por falar em "dissonâncias"...

Em 2011 o Ministro da Defesa Nacional (MDN) veio à Abertura Solene e fez um discurso amplamente elogiado, que até teve honras de um "Zacatraz". Sei que o autor da iniciativa "carrega essa cruz", mas é uma cruz injusta, porque a maioria dos Antigos Alunos presentes acreditou que agora é que era, agora é que íamos ter um Ministro que ia definir connosco uma solução de futuro para o Colégio.

Os críticos diziam "atenção que ele é um político, diz uma coisa hoje e faz outra completamente diferente amanhã", mas, que raio, porque haveria de um Ministro vir fazer um discurso daqueles se não tinha a intenção de o concretizar? Não precisava de se ter comprometido, bastaria ter feito o "discurso de circunstância nº 23" e ninguém o censuraria...

Veio a comissão presidida pelo Professor Marçal Grilo, que tratou os Antigos Alunos com respeito, embora tenha proposto uma solução diferente da que preconizávamos. Ainda assim, havia uma boa base de entendimento e alguns temas para trabalhar.

Veio então uma nova comissão, presidida por um Professor do Porto que aparentemente tinha curriculum na área da educação, mas que o mais perto que tinha estado do Colégio Militar tinha sido quando vinha a Lisboa e passava na 2ª Circular. Recebeu a AAACM e foram-lhe entregues os documentos dos trabalhos que a AAACM desenvolve há mais de 10 anos sobre o futuro do Colégio.

E a seguir veio o "manto de silêncio". De repente, os telefonemas deixaram de ser atendidos e as cartas deixaram de ser respondidas. O Professor "eclipsou-se".

E, perante o silêncio, surgiu a especulação. "Será medo? Vai decidir uma coisa contra nós e por isso evita-nos? Será estupidez? Não percebe que o podemos ajudar e que é importante que discuta a solução connosco? Será malícia? Recebeu um telefonema do Grão-Mestre e agora anda a 'tourear-nos'? Será arrogância? Acha que ele é que sabe, e que não precisa de nós para nada?" Não sei qual ou quais os factores que se aplicam, nem com que peso, mas sei que uma pessoa frontal, honesta e leal não deixa telefonemas nem cartas por responder, responde mesmo que as notícias não sejam boas; aliás, responde sobretudo se as notícias não forem boas.

Do lado do poder político, o mesmo silêncio. O "nosso amigo da Abertura Solene" também nos ignorou. A dissonância com o discurso da Abertura Solene de 2011 era total.

Até que, finalmente, houve notícias! Do outro lado da barricada surgiu a convocatória para uma reunião, mas foi para comunicar aos Antigos Alunos as conclusões da comissão, para nos dizerem o que determinaram fazer ao nosso Colégio. E discutirem connosco, ouvirem a nossa opinião sobre a proposta, ouvirem os nossos alertas? "Temos pena...". E discutirem com a Associação de Pais e Encarregados de Educação? "Temos pena..." E discutirem com as Associações representantes do Instituto de Odivelas, cujo encerramento foi decidido? "Temos pena..."

Dizem-me as pessoas que "a política é mesmo assim..." Cobardia? Estupidez? Malícia? Arrogância? É isto a política? Pois, assumo que sou ingénuo. E pouco observador, porque conheço algumas pessoas na política que não me parecem ser assim.

Depois foi o que se sabe: o vídeo feito a promover a "marca branca" dos EME, em vez de explorar o valor das marcas actuais, os artigos no Diário de Notícias dos nossos "jornalistas de estimação", sempre com informações "frescas" de fontes seguras, e, já depois da campanha do "Porquê?" da AAACM, as insinuações por parte do MDN quanto à origem do dinheiro, o artigo do "Fazer História" da Secretária de Estado, a audiência só para "cumprir calendário", etc.

Esperemos que a história não acabe assim, porque o Colégio Militar e Portugal merecem muito melhor.

Quanto ao concurso Não Recomendável, é mais um exemplo da forma pouco séria e pouco profissional como esta reforma tem vindo a ser gerida. Os próximos passos que consigo antever são: um atelier Não Recomendável vai ganhá-lo de forma Não Recomendável, e seguir-se-á outro concurso Não Recomendável para a construção do edifício, que será ganho também de forma Não Recomendável por uma construtora Não Recomendável.

domingo, outubro 20, 2013

Risco de Explosão

Eu não uso o telemóvel em bombas de gasolina. Até hoje ainda não consegui perceber exactamente porque é que não posso, e não sou o único, porque vejo pessoas que entram na bomba e continuam a falar ao telemóvel.

Porque é que é proibido? Porque um dia uns especialistas deram uma explicação impossível de perceber envolvendo gases e ondas electromagnéticas, e que concluía que havia risco de explosão. As empresas gasolineiras não querem explosões nas suas bombas de gasolina, por isso decretaram a proibição; as pessoas de bom-senso não querem explodir, por isso acatam a proibição, mesmo que não consigam perceber exactamente o motivo.

Quando se fala em internato misto no Colégio Militar, à partida não parece haver problema algum. "É certo que se trata de adolescentes, mas desde que sejam adequadamente supervisionados, não haverá qualquer problema", dizem as pessoas. "Há campos de férias mistos, acampamentos mistos nos Escoteiros, internatos mistos em Inglaterra, etc. Porque é que o Colégio Militar há-de ser diferente?"

Se há tema em que os Antigos Alunos do Colégio Militar são especialistas, esse tema é o Colégio Militar. E os especialistas sabem que há "risco de explosão", e que nenhuma supervisão será a adequada, muito menos num contexto de degradação do internato masculino com a entrada de alunos internos para o 10⁰ ano, e num contexto de corte de custos. E se os especialistas explicarem, é natural que não sejam compreendidos, porque há situações que só as compreende quem passa por elas.

As pessoas da comissão que propôs esta solução podem perceber alguma coisa de educação, mas não percebem grande coisa de adolescentes, e não percebem nada do Colégio Militar.

O Ministro da Defesa Nacional, Dr. José Pedro Aguiar-Branco, quer internato misto no Colégio Militar, porque diz que "valoriza a Instituição". Vamos a isso! No dia em que houver uma "explosão", para além do(s) menor(es) autor(es) e do Director, espero ver no banco dos réus o Dr. José Pedro Aguiar-Branco, na sua qualidade de responsável pela decisão da criação do internato misto. E se o edifício do internato feminino ficar "às moscas" por não haver pais interessados em colocar lá as suas filhas, espero ver o Dr. José Pedro Aguiar-Branco no banco dos réus por ter ordenado uma despesa inútil de milhões de euros.

Para evitar despesismo e "explosões", é importante que todas as pessoas responsáveis chamem à atenção para este problema, tal como tem feito a Associação dos Antigos Alunos do Colégio Militar. O País não pode gastar milhões de euros a construir um edifício e a criar uma situação de risco só porque o Dr. José Pedro Aguiar-Branco meteu na cabeça que tem que ser assim e quer vencer um "braço de ferro" que ele próprio criou e alimenta.

Se o Ministro da Defesa Nacional quer uma solução para este problema, essa solução tem que ser encontrada no quadro de uma solução global, em diálogo com as Associações de Antigos(as) Alunos(as) e as Associações de Pais e Encarregados de Educação do Colégio Militar e do Instituto de Odivelas.

sábado, outubro 19, 2013

Carta Aberta ao Ministro da Defesa Nacional

Exmo. Sr. Ministro da Defesa Nacional,

Como V. Exa. saberá, o seu antecessor iniciou um processo que designou por "Reestruturação dos Estabelecimentos Militares de Ensino (EME)", e que teve como decisões principais a extinção do Instituto de Odivelas e a passagem do Colégio Militar a internato/externato misto.

Como V. Exa. também saberá, esta reestruturação foi proposta por uma comissão da confiança do seu antecessor, alegadamente com base numa proposta da comissão anterior liderada pelo Professor Marçal Grilo, que imediatamente veio a público demarcar-se das decisões e referir que as mesmas não respeitavam o espírito das suas recomendações. A proposta da referida comissão foi convertida em Despacho sem sequer ser apresentada e discutida com as Associações de Pais e Encarregados de Educação, nem com as Associações de Antigos(as) Alunos(as). Estas associações, que são quem melhor conhece as referidas instituições, foram deliberadamente mantidas à parte no processo, não havendo resposta às suas cartas nem aos seus pedidos de audiência.

V. Exa. reconhecerá seguramente o Instituto de Odivelas como uma escola que apresenta resultados académicos excelentes e educa as suas alunas nos princípios da solidariedade e do amor à Pátria. Esta escola vai ser extinta, terminando assim com 113 anos de uma história de sucesso. Aquilo que o seu antecessor designava por "fusão com o Colégio Militar" não é mais do que dar às alunas do Instituto de Odivelas a possibilidade de irem para outra escola completamente diferente; o essencial do Instituto de Odivelas - valores, tradições, características específicas do ensino diferenciado por género, etc. - desaparece por completo.

V. Exa. reconhecerá seguramente o Colégio Militar como uma das instituições de maior prestígio do País. Ao longo dos seus 210 anos de história o Colégio Militar educou milhares de cidadãos que honraram e prestigiaram a Pátria com a sua actuação, incluindo 5 Presidentes da República e centenas de outros reconhecidos na toponímia nacional. O Despacho do seu antecessor "condenou" o Colégio Militar a passar, em apenas 2 anos e sem qualquer preparação, de internato masculino a internato/externato misto com a possibilidade de entrada de alunos internos para o 10º ano, o que está a subverter a forma de funcionar do Colégio Militar, e acabará por desvirtuá-lo completamente, tornando-o numa escola secundária como todas as outras.

A decisão do seu antecessor foi acompanhada por várias medidas vergonhosas, tais como uma campanha que visava criar uma nova marca - Estabelecimentos Militares de Ensino - em vez de aproveitar o reconhecimento e o valor das existentes, a passagem de informações a jornalistas para a elaboração de artigos contra as Associações de Antigos(as) Alunos(as), e até o caricato de receber as Associações ao fim de vários meses de tentativas por parte destas, para lhes reafirmar a sua decisão, sentando-se num plano superior e nem se dignando a olhar olhos nos olhos os seus interlocutores, entretendo-se antes com a sua colecção de 24 canetas Montblanc, numa demonstração de total desrespeito pelos cidadãos que jurou pela sua honra servir com lealdade.

O seu antecessor, pela sua arrogância e incapacidade de ouvir os outros, foi um dos piores Ministros da nossa história democrática.

Apesar de confrontadas com um homem que não luta para servir o País, mas sim para não perder as "guerras" em que entra, faça ou não sentido a sua posição, as Associações de Antigos(as) Alunos(as) nunca baixaram os braços e têm vindo a desenvolver um conjunto de acções cívicas no sentido de apelar ao diálogo e ao bom-senso. Estas acções, apesar de contarem com o apoio e participação de figuras destacadas da sociedade portuguesa, incluindo um ex-Presidente da República, vários ex-Ministros, Oficiais Generais na Reserva, etc., esbarraram sempre na insensibilidade, arrogância e má-fé do seu antecessor, apesar de este se proclamar um grande defensor do Colégio Militar.

Estando agora V. Exa. com a responsabilidade da Defesa Nacional, gostaria de lhe chamar à atenção para a importância de resolver este problema. Não lhe peço que tire as meninas do Colégio Militar, ou qualquer outra medida de carácter avulso; apenas lhe peço uma coisa que era impossível com o seu antecessor: diálogo. Peço-lhe que dialogue com as Associações de Antigos(as) Alunos(as) e com as Associações de Pais e Encarregados de Educação de ambas as instituições para que se procure a solução que sirva melhor os interesses de médio/longo prazo do País, sem dogmas de qualquer espécie, sem pré-condições, sem outros interesses que não sejam os de lutar pela sustentabilidade das instituições, pela excelência do ensino e pela formação de cidadãs e cidadãos válidos.

Com os melhores cumprimentos e votos de um excelente mandato,

Pedro Chagas

Antigo Aluno n° 357/1977 do Colégio Militar

segunda-feira, setembro 23, 2013

Reforma dos EME: O Impensável

E se uma maioria parlamentar de dois terços alterasse a Constituição sem discutir as alterações com todos os partidos representados na Assembleia da República?

Impensável!

E se a Federação Portuguesa de Futebol alterasse os regulamentos das competições profissionais sem discutir as alterações com os clubes?

Impensável!

E se o Ministro da Defesa Nacional reformulasse os Estabelecimentos Militares de Ensino, extinguindo o centenário Instituto de Odivelas e descaracterizando o bicentenário Colégio Militar, sem discutir as alterações com os pais e encarregados de educação dos(as) alunos(as) nem com os(as) Antigos(as) Alunos(as)?

Impensável!

Impensável, seguramente, mas acaba de acontecer.

A Democracia não é apenas uma norma escrita que obriga à realização de eleições de n em n anos, é uma cultura que se pratica em todas as decisões e em todos os actos de gestão, que dignifica quem a pratica e envergonha quem a nega.

Por isso estamos chocados com o comportamento do Ministro da Defesa Nacional. Por isso perguntamos: porquê?

sábado, setembro 21, 2013

Reforma dos EME: Porquê? O Quê? Como?

Ainda a forma.

Alguns comentários que me têm sido enviados dizem que me foco muito na forma e pouco no conteúdo, ou seja, parece que o meu problema é mais com a forma como a decisão foi tomada, do que com a decisão em si.

Para mim, a forma faz parte do conteúdo; aliás, é mesmo a parte mais importante do conteúdo. Como dizem os anglófonos, "actions speak louder than words": as acções - forma - falam mais alto do que as palavras - conteúdo.

Em qualquer processo de mudança há que responder a 3 questões básicas: "porquê?", "o quê?" e "como?". Porque é que esta mudança é necessária e/ou importante? O que é que vai ser feito para endereçar as questões identificadas? Como - acções concretas, datas, orçamentos, etc. - é que vai ser feito?

No processo de reestruturação dos Estabelecimentos Militares de Ensino (EME), o Ministro da Defesa Nacional (MDN) nomeou uma comissão para responder a estas questões. No fim do trabalho há um conjunto de palavras - um Despacho assinado - e um conjunto de acções que falam mais alto: 1) a comissão não discutiu nenhum dos seus "porquê?", "o quê?" ou "como?" com as entidades que melhor conhecem os EME e que melhores condições têm para participar no processo de mudança: as Associações de Pais e Encarregados de Educação, e as Associações de Antigos(as) Alunos(as); 2) o MDN não respondeu a nenhuma das cartas que lhe foram enviadas nem concedeu nenhuma das audiências que lhe foram pedidas. Para além de uma questão de direito e de justiça, discutir as soluções com estas entidades seria uma prova de inteligência e de boa-fé.

O que é que nos dizem estas acções, e todas as outras que o MDN tem feito desde que o Despacho foi publicado? Que o MDN é um político do tipo "quero, posso e mando" e está de má-fé neste processo. A partir deste momento, o Despacho - as palavras - é irrelevante, esmagado por acções inconcebíveis num Governo que resultou de um processo democrático. É por isso que defendo a suspensão do Despacho e a sua substituição por um processo que envolva, numa lógica de boa-fé, todas as entidades relevantes.

quinta-feira, setembro 19, 2013

Reforma dos EME: Porque Quer

"Porquê?" é a pergunta que a Associação dos Antigos Alunos do Colégio Militar (AAACM) escolheu para a sua campanha. A AAACM quer saber - todos queremos saber - a resposta a algumas perguntas básicas. Porque é que o processo foi conduzido da maneira como foi, à pressa, sem discussão, e com um afastamento deliberado das Associações de Antigos(as) Alunos(as) e das Associações de Pais e Encarregados de Educação? Que soluções foram consideradas? E porque é que foi esta a solução escolhida?

Como todos os políticos, JPAB gosta de mostrar "obra feita", gosta de fazer "reformas", e a reestruturação dos Estabelecimentos Militares de Ensino (EME) afigurou-se-lhe como uma oportunidade perfeita.

Os EME são alvos fáceis: têm alguns problemas, que podem ser exagerados e utilizados como justificação; os pais não vão sacrificar os seus filhos em acções de força; os oficiais superiores não vão arriscar as suas carreiras para os proteger; os militares não vêm para as ruas; a reestruturação faz-se depressa (no tempo que JPAB quiser); as comunidades de Antigos Alunos e Antigas Alunas não têm peso político, não estão infiltradas nas estruturas do Partido, e por isso não vão criar problemas no Partido e no Governo. Para além disso, uma reestruturação dos EME "dá pontos" junto da opinião pública, dado que é um ataque aos "privilégios" dos militares.

JPAB montou uma primeira comissão liderada por um nome "sonante" para ganhar credibilidade, e depois montou uma segunda comissão liderada por uma pessoa da sua inteira confiança para produzir o relatório com o resultado pretendido.

JPAB tem no seu curriculum que foi mediador em diversas instituições de mediação de conflitos. Sabe, portanto, o que é a gestão da mudança, e sabe que num processo de reestruturação deve envolver os "stakeholders" para conhecer melhor a realidade, deixar as pessoas falar, ouvir os seus argumentos, e assim melhorar a solução e aumentar as probabilidades de sucesso. Então porque é que JPAB escolheu ignorar deliberadamente todos os "stakeholders" e criar um conflito com estes? Porque sabia que uma discussão séria exigiria sempre algum tempo, e JPAB sabe o que quer, e não quer perder tempo com conversas.

Basta olhar para JPAB para perceber que é um homem orgulhoso, alguém que alimenta conflitos e que se alimenta de conflitos. Ao contrário de outros políticos, que se desgastam com as críticas e perdem a motivação, JPAB "vibra" com a confrontação e destaca-se pela riqueza da sua retórica. É por isso que JPAB chegou onde chegou dentro do Partido, e é por isso que ainda hoje o Primeiro-Ministro o usa para reagir "a quente" e responder agressivamente à oposição em alguns temas do dia-a-dia.

A partir do momento em que saiu o Despacho e os "stakeholders" se indignaram, quer pela forma como o processo decorreu, quer pelo conteúdo, todo este processo passou a ser um jogo. Já não estamos a discutir uma reforma de instituições centenárias, estamos a discutir quem ganha, e JPAB não pode perder, não vai perder. Para assegurar isso, pôs a sua "máquina" a funcionar, e começaram a surgir as notícias nos jornais, a criação da "marca branca" e o respectivo vídeo de promoção, as insinuações de dúvidas sobre a origem do dinheiro gasto pela AAACM, etc. Num ápice, os "bloguistas da moda", "parasitas" dos dinheiros públicos e fornecedores habituais de JPAB, colocaram toda a sua imensa graça ao serviço desta causa, tudo feito "fora de horas", naturalmente.

Alguns falam em interesses imobiliários ligados aos terrenos do Colégio ou ao edifício do Instituto de Odivelas, outros falam do "avental"... não conheço quaisquer motivos invisíveis, mas espero que alguém que os conheça os revele. Aquilo que eu vejo é uma figura autoritária, que não responde a cartas nem a pedidos de audiência, e que destrói a "alma" de duas instituições centenárias sem sequer lhes dar uma oportunidade.

Esperemos que o próximo Ministro da Defesa Nacional venha a tempo de parar a destruição iniciada por JPAB e construir uma solução que defenda os interesses das instituições, dos alunos e alunas, e de Portugal.

segunda-feira, setembro 16, 2013

Reforma dos EME: Porque Pode

O Ministro da Defesa Nacional, José Pedro Aguiar-Branco (JPAB), está a fazer uma reforma que acaba com o Instituto de Odivelas e desvirtua completamente o Colégio Militar. Porquê? Por dois motivos: porque quer e porque pode. Vamos analisar o "porque pode".

O Primeiro-Ministro pode impedi-lo?

JPAB chegou ao Governo num processo de pacificação do PSD, depois de ter sido um dos candidatos derrotados por Pedro Passos Coelho (PPC) na eleição para Presidente do Partido. Apesar de JPAB não ter tido uma votação significativa, PPC achou por bem dar-lhe uma posição de destaque, usando a velha máxima da Mafia: "keep your friends close and your enemies closer".

Quando se dá uma missão a alguém, tem que se lhe dar meios para que a execute, e a autonomia para tomar decisões é o meio mais importante. Sendo assim, PPC não deve desautorizar JPAB interferindo nas suas decisões, sobretudo em temas menores (à escala governativa) como a reestruturação dos Estabelecimentos Militares de Ensino (EME). Para além disso, PPC precisa do Governo e do Partido unidos à volta das medidas duras que estão a ser tomadas para o País, pelo que o que ele menos quer agora é este "Barão do Norte" a criar um foco de desestabilização no Partido e no Governo. E JPAB promete poupanças com esta reestruturação, que é precisamente a conversa que PPC quer ouvir nesta fase.

Mesmo que PPC tenha alguma simpatia pelo Colégio, e não há qualquer evidência disso, nunca diria mais do que "recebe lá os gajos, que estou farto de os ouvir", sugestão que JPAB seria perfeitamente livre de ignorar. Isto significa que, do lado do Primeiro-Ministro, JPAB não terá qualquer oposição.

A Presidência da República pode impedir JPAB?

O Presidente da República (PR), aluno honorário nº 695 do Colégio Militar, certamente imaginava que a Presidência da República era, como foi para os seus antecessores, um "passeio" de 10 anos, o culminar de uma carreira política que o colocaria definitivamente nos livros de história, com direito a quadro a óleo na parede.

O que ele não esperava é que lhe "caísse em cima" a pior crise das últimas décadas, e ficasse toda a gente a olhar para ele à espera de um papel activo na resolução da mesma. O PR já tem muito trabalho para se fazer "invisível", e não quer ter também o problema do Colégio Militar e do Instituto de Odivelas "à perna". Por isso, quando recebeu a carta assinada pelos órgãos sociais da AAACM e por 35 personalidades de reconhecido destaque, a primeira coisa que fez foi passá-la ao Governo, como se ela queimasse mais do que os incêndios que devastam o País. Governo esse que, pelos motivos que já vimos, a meteu no lixo. Isto significa que, do lado da Presidência da República, JPAB não terá qualquer oposição.

A opinião pública pode impedir JPAB?

JPAB tem uma posição invejável no Governo, porque é o Ministro que tutela o grupo pelo qual a opinião pública tem ainda menos respeito do que tem pelos políticos: os militares.

A opinião pública acha que os políticos querem "tacho" e são corruptos, mas ainda tem algum respeito pela obra de alguns, nomeadamente os autarcas, sendo possível ouvir dos eleitores frases simpáticas como "ele rouba como os outros, mas ao menos faz coisas". Quanto aos militares, a opinião pública acha que são simplesmente inúteis. "Estamos em guerra? Há alguma ameaça? Então para que é que é necessário ter dezenas de milhares de militares? E para que é que é necessário ter aviões F-16 e submarinos?"

Tudo o que seja cortar benefícios aos militares é visto com agrado pela opinião pública, e o Colégio Militar é visto como um desses benefícios, uma das heranças do passado que incompreensivelmente ainda não foi destruída, tal como os Hospitais das Forças Armadas. As palavras "casta" e "elite" aparecem sempre associadas ao Colégio, posicionando-o como um encargo desnecessário para os contribuintes.

Para manter a opinião pública neste estado, JPAB conta com agências de comunicação e meios de comunicação social que estão significativamente dependentes dos dinheiros públicos, e que passam regularmente mensagens de descredibilização das Forças Armadas, do Colégio, da AAACM, etc. O Diário de Notícias tem sido um dos meios preferenciais, havendo um jornalista que tem acesso a "fontes" e que tem assinado a maioria dos artigos sobre o tema nos últimos anos, tendo os seus artigos já por mais de uma vez recebido a reprovação por parte do Provedor dos Leitores do próprio Diário de Notícias. As agências de comunicação são pagas para fazer as campanhas como a de promoção dos EME, monitorizam e gerem as redes sociais, etc. Se há coisa fácil de manipular pela equipa de JPAB, é a opinião pública.

Naturalmente que há vozes que se levantam em apoio ao Colégio, mas são vistas como opiniões isoladas de pessoas agarradas ao "antigamente". Isto significa que, do lado da opinião pública, JPAB não terá qualquer oposição.

E quanto às chefias militares? Apesar de dependerem directamente de JPAB, podiam recusar-se, revoltar-se, demitir-se, etc...

Nem pensar. As chefias militares estão a construir a sua carreira, têm os seus objectivos para atingir, os seus homens para gerir, e os seus cortes para fazer. O Colégio Militar não está sequer no Top-50 da sua lista de preocupações. Do lado das chefias militares, JPAB não terá qualquer oposição.

JPAB pode, e sabe que pode. E a verdade é que podia ter decidido fazer muito mais do que está a fazer. Podia pura e simplesmente ter decidido extinguir os 3 EME. Isto quer dizer que temos que lhe... agradecer?

sexta-feira, setembro 13, 2013

Reforma dos EME: Sexo Consentido vs Violação

Esta semana, pela primeira vez em 210 anos, foram admitidas meninas como alunas do Colégio Militar (CM). Não há dúvidas de que se trata de um momento histórico. Então porque é que eu não estou a exultar de alegria?

Sempre fui aberto à entrada de meninas no CM, sempre acreditei que isso ia acontecer mais tarde ou mais cedo, e sempre acreditei que isso iria acontecer por fusão com o Instituto de Odivelas (IO). Até o escrevi há 8 anos num documento que circulou na comunidade de Antigos Alunos. Então porque é que eu não estou a exultar de alegria?

Sempre imaginei um momento em que, independentemente das questões financeiras, as partes envolvidas, num processo bem conduzido pela tutela, concordariam que era possível fundir os 3 Estabelecimentos Militares de Ensino (EME) num só, seguindo o modelo de alguns prestigiados colégios ingleses, e que o escolhido seria o CM, pela sua maior antiguidade, maior prestígio, e melhores instalações. Sempre imaginei que o modelo seleccionado permitiria preservar o que de melhor existe nos 3 EME, mantendo turmas com ensino diferenciado para quem o desejasse, mantendo Batalhões separados por género para respeitar a especificidade e desenvolver as capadidades de liderança de ambos, mantendo um número de alunos(as) externos(as) limitado para não destruir o internato, mantendo as tradições, etc.

É claro que isso levaria a uma mudança no CM, mas o CM tem mudado ao longo dos anos, tem-se adaptado à conjuntura em que se insere, e continuaria a fazê-lo, mantendo no entanto o espírito do seu Fundador.

Mas porque é que eu não estou a exultar de alegria?

Não estou a exultar de alegria porque existe uma diferença - toda a diferença do mundo - entre sexo consentido e violação, apesar de, em termos objectivos, serem ambos sexo.

A reforma actual foi montada e executada contra tudo e contra todos, devido à obstinação de um homem que usa de forma autoritária o poder que foi colocado à sua disposição. Esta reforma acontece desta forma essencialmente por dois motivos simples: porque ele quer e porque ele pode.

Os Antigos Alunos do CM foram violados porque andam desde o ano 2000 a fazer estudos sobre o futuro do Colégio, e a tentar convencer a tutela de que é necessário fazer mudanças, sem que ninguém quisesse pegar no tema. Neste processo de mudança foram propositada e ostensivamente ignorados, não tendo resposta às cartas escritas, aos pedidos de audiência, e aos apelos feitos. Além disso, sem que a sua opinião fosse ouvida e discutida, foram chamados pelo poder político de retrógrados, machistas, elitistas, e até de corruptos, com insinuações sobre a proveniência do dinheiro usado na campanha publicitária.

As Antigas Alunas do IO foram violadas porque foram informadas de que a sua escola seria extinta sem terem qualquer possibilidade de intervir no processo, nem para o evitar, nem para o condicionar. Tal como os Antigos Alunos do CM, viram os seus apelos ignorados e tiveram direito aos mesmos "piropos" com que estes foram mimados. Não tendo entre as suas Antigas Alunas Generais, ex-Ministras, etc., foram "trituradas" com muito mais facilidade pela "máquina".

Os pais e encarregados de educação do CM e do IO foram violados porque nunca ninguém quis discutir com eles o futuro das escolas onde decidiram colocar os seus filhos. "Isto é assim, e se não gostam ponham os vossos filhos noutra escola qualquer", foi a mensagem que acabaram por assimilar de todo este processo. Naturalmente que também os(as) respectivos(as) filhos(as) e educandos(as) foram violados(as) neste processo, mas se a opinião dos pais e encarregados de educação é considerada irrelevante, muito mais irrelevante será a opinião de crianças e adolescentes.

O Director do IO foi violado porque enviou uma mensagem de simpatia e esperança aos pais e encarregados de educação das alunas, e teve imediatamente direito a "um novo desafio".

Um conjunto de figuras de peso na sociedade, que foram signatários da carta ao Presidente da República, bem como diversos comentadores que se manifestaram a favor do diálogo e do bom-senso, foram violados porque as suas opiniões foram simplesmente ignoradas. Foi como se nunca tivessem sido proferidas.

A Sociedade Civil, através de milhares de pessoas que manifestaram nas redes sociais simpatia para com o CM e o IO, apelando à procura de uma solução mais adequada, foi violada. São "povo", e a sua voz "não chega ao céu".

Tudo isto acontece enquanto o Ministro tece rasgados elogios ao ensino dos EME, apresentando-se como o maior defensor dos mesmos.

A imprensa comentou que, "apesar da polémica, as meninas foram bem recebidas..." Claro. O que é que imprensa esperava? Que as meninas e os respectivos pais e encarregados de educação, que não têm qualquer responsabilidade nesta "palhaçada", fossem maltratados numa instituição onde o respeito é um dos principais valores transmitidos? O Director do Colégio Militar fez o seu papel: garantir a harmonia e o bem-estar dos alunos e alunas colocados à sua responsabilidade.

Aquilo que podia ter sido um momento especial para toda a comunidade dos 3 EME, acaba por ser um momento em que um Ministro, com a respectiva "máquina", se impõe com autoritarismo sobre duas instituições e os respectivos representantes, e choca mais porque nem sequer houve conversa para perceber se se chegava a um entendimento, partiu-se logo para a violação.

Como acontece com todas as violações, a vida continua, mas as marcas demorar a sarar, e há algumas que ficam para sempre.

Acima de tudo, fica no ar a pergunta que os Antigos Alunos fizeram na sua campanha: "porquê?"

terça-feira, setembro 10, 2013

Reforma dos EME: A Questão Central

"Porque é que não querem meninas no Colégio Militar?" parece ser a questão que toda a gente coloca hoje em dia aos Antigos Alunos. Mérito da "máquina" de comunicação do MDN, que conseguiu focar a discussão nesta falsa questão, e demérito nosso, que não conseguimos focar a discussão nas questões centrais.

Vamos imaginar que este processo tinha sido gerido de forma participada e não com autoritarismo com verniz, e que o Despacho era o resultado dessa discussão, ouvidas todas as partes, discutidos todos os pormenores, e decidida a forma final por quem tem o poder para o fazer.

Porque é que este resultado final não serve?

O Colégio Militar tem 210 anos de história. Ao longo da sua existência a instituição foi mudando, mas houve determinados aspectos que se foram mantendo e que contribuem para que o "produto final" seja consistente ao longo dos anos. Uns chamar-lhe-ão "ADN", outros "ethos", outros "Alma", outros "mística", mas existe de facto qualquer coisa que faz com que as diferentes gerações de Meninos da Luz partilhem entre si valores que conduzem a comportamentos coerentes perante as situações com que se deparam, especialmente quando estas saem da normalidade. Este "ADN" é o factor que leva os pais a colocarem os seus filhos no Colégio Militar, reconhecendo o contraste face ao ambiente que se vive na maioria das escolas do País.

O mesmo pode seguramente ser dito do Instituto de Odivelas, e esta reforma começou por agarrar no "ADN" do Instituto de Odivelas e "mandá-lo pelo cano abaixo". Assim, sem mais conversa, uma forma de educar afinada ao longo de 113 anos e que tem apresentado bons resultados foi deitada fora sem que nada fosse tentado para a salvar, quer viabilizando o Instituto, quer garantido uma integração adequada no Colégio Militar. E isto foi feito "a sangue frio", sem que fosse discutido com a Associação de Pais e Encarregados de Educação e com a Associação de Antigas Alunas.

Como é que é possível encerrar-se assim uma escola como o Instituto de Odivelas, como se fosse uma qualquer escola do interior que ficou sem alunos por falta de crianças, e como é que é possível que ninguém com responsabilidades ao nível da governação do País se manifeste, são questões que ainda estão à espera de uma resposta. Uma decisão destas devia tirar o sono a quem a tomou, mas seguramente que os responsáveis dormem descansadamente, como se nada se passasse. Uma decisão destas, nem que seja pela forma como foi tomada, devia ter consequências políticas, mas estamos numa sociedade sem valores, que vê com indiferença a destruição do pouco que resta.

As alunas irão migrando para o Colégio Militar "aos bochechos", sendo integradas numa forma de funcionamento completamente diferente, e em 2016 a última despede-se de D. Diniz, apaga a luz e fecha a porta, e o Instituto de Odivelas estará oficialmente extinto.

Entretanto, esta reforma "agarra" no Colégio Militar e passa-o de uma tradição de 210 anos de internato masculino para um internato/externato misto em apenas 2 anos, sendo que a maior parte das mudanças são feitas logo no primeiro ano, passando a haver alunos internos entrados para anos avançados, alunos externos e alunas externas.

O "ecossistema" do Colégio Militar baseia-se numa estrutura liderada pelos alunos dos últimos anos, designados por "Graduados", que acumulam com as suas responsabilidades escolares as responsabilidades de gerirem o Batalhão Colegial. Esta mudança súbita de modelo, com tantas variáveis diferentes para integrar num só ano, vai irremediavelmente destruir o modelo existente, dando lugar a qualquer coisa de novo, seguramente muito distante do original.

O "ADN" do Colégio não vai conseguir resistir a uma mudança tão profunda num tempo tão curto, e dentro de poucos anos o Colégio Militar não será mais do que a Escola Secundária Militar da Luz, um externato igual a tantos outros, onde os alunos, se as famílias assim o desejarem, também podem pernoitar. E se o "produto" não for diferenciado, os clientes não o procurarão, o que levará à sua extinção.

Este Governo conseguirá, assim, destruir de uma só vez o "ADN" de duas escolas de prestígio. A isto é que se chama "fazer história".

O que é que pretendem os Antigos Alunos? Duas coisas simples: diálogo e tempo. Diálogo, para que se possa sair do autoritarismo com verniz que actualmente existe, para que as pessoas possam participar na discussão e tentar arranjar as melhores alternativas para preservar o que de bom existe nas duas instituições. Tempo, para que as mudanças que venham a ser decididas possam ser executadas de forma faseada, sem causar disrupção.

É só isto que os Antigos Alunos querem; tudo o resto é "ruído" causado pela "máquina" de comunicação do Ministério da Defesa Nacional para desviar o foco dos temas centrais.

A "certidão de óbito" do Instituto de Odivelas já tem data marcada. E, embora não seja tão explícito, a do Colégio Militar também. A Escola Secundária Militar da Luz pode durar mais uns anos, dependendo da disponibilidade das famílias para pagar por uma Escola Secundária com actividades extracurriculares, e da pressão imobiliária que houver sobre as instalações, mas já não será o Colégio Militar que conhecemos, que o País respeita e os Antigos Alunos amam.

sábado, setembro 07, 2013

Reforma dos EME: A Negação da Democracia

Por vezes, quanto mais básicos e fundamentais são os direitos, mais veementes somos a exigi-los para nós, e mais rápidos somos a negá-los aos outros. A presunção da inocência é um dos exemplos mais simples: somos muito rápidos a julgar os outros, que são sempre uns “bandidos”, mas nós somos inocentes até que a última instância confirme a condenação (e mesmo depois disso).

A responsabilidade do estado é zelar pelo respeito dos direitos dos Cidadãos, para evitar a “justiça popular” e a tomada de decisões contrárias aos interesses e às necessidades das populações. Esta é a essência da Democracia: representantes eleitos pelo povo que gerem os bens e serviços comuns no interesse de todos.

É por isso que há inúmeros mecanismos na lei para que as pessoas possam tomar conhecimento das propostas de decisão e possam discuti-las e apresentar alternativas. Um exemplo: os processos de Concertação Social. O Governo pode não ceder um milímetro nas suas posições, mas é obrigado a discuti-las com os Sindicatos. Outro exemplo: os projectos urbanísticos. É obrigatória a exposição pública durante um determinado período, para que os Cidadãos possam tomar conhecimento, discutir, apresentar alternativas, etc.

Não interessa se as decisões são as “melhores”, os governados têm sempre direito a discuti-las. Uma ditadura com petróleo, onde toda a gente tem uma boa casa, um bom carro e um bom ordenado, não deixa de ser uma ditadura, porque nega às pessoas aspectos fundamentais como o de poderem decidir sobre quem os governa, discutir a forma como os governa, e de poderem candidatar-se a governar.

A reforma dos Estabelecimentos Militares de Ensino (EME) sofre na sua base desta negação da Democracia. As entidades que têm relações mais fortes com os EME – Associações de Pais e Encarregados de Educação, e Associações de Antigos(as) Alunos(as) – , sendo que as primeiras têm até um estatuto específico definido pela lei, não foram envolvidas no processo e não tiveram a oportunidade de discutir a solução proposta, criticá-la, apresentar alternativas, etc.

Não se confunda “serem envolvidas” com “serem ouvidas”. Um decisor pode ouvir todos os envolvidos, registar as suas opiniões, e depois tomar uma decisão e comunicá-la. Isto não é Democracia, é autoritarismo com uma camada de verniz. Democracia é ouvir os envolvidos, preparar uma proposta de decisão, apresentá-la aos envolvidos, ouvir os seus argumentos, e tomá-los em consideração. No fim será necessário tomar uma decisão, e alguém está mandatado para o fazer, mas não o terá feito sem discutir com todos os envolvidos e lhes dar uma oportunidade para conhecerem e criticarem a solução.

A reforma dos EME seguiu o caminho do autoritarismo com uma camada de verniz. As Associações que mostraram interesse em ser ouvidas foram ouvidas, a sua “papelada” foi recebida, não houve qualquer comentário, resposta ou partilha da outra parte, e uns meses depois apareceu um relatório final, logo seguido por um Despacho a dizer o que ia ser feito e como ia ser feito, sem que tivesse havido qualquer possibilidade de discussão.

A reforma dos EME é, assim, um atentado à Democracia, e por isso deve ser imediatamente suspensa. Não são precisas análises sobre o mérito da solução proposta; o simples facto de esta ter sido obtida de uma forma que não respeita a Democracia deve ser suficiente para que o processo volte para trás.

Acham que esta argumentação é ridícula? “Por vezes, quanto mais básicos e fundamentais são os direitos, mais veementes somos a exigi-los para nós, e mais rápidos somos a negá-los aos outros”. Acham que um Governo tem o direito de decidir o futuro do Colégio Militar e do Instituto de Odivelas, instituições centenárias e com prestígio, sem que as respectivas Associações de Pais e Encarregados de Educação – que representam os interesses dos(as) alunos(as) actuais – e Associações de Antigos(as) Alunos(as) – que garantem a manutenção do modelo ao longo dos anos e têm como associados(as) alunos(as) dos últimos 70 anos – tenham a possibilidade de conhecer e discutir a solução proposta? Pensem num tema qualquer que vos é querido, em relação ao qual sentem que têm direitos, e onde acham que a vossa opinião é importante, talvez mesmo fundamental, e depois imaginem vir alguém e tomar decisões sem as discutir com vocês... iam achar que o procedimento não fazia qualquer sentido.

Este é o tema central da discussão, e tudo o resto pode ser dividido em duas categorias, que serão abordadas noutros posts: o “porquê” – porque é que o Governo utiliza neste tema autoritarismo com verniz? – e o “ruído” – todas as informações que têm sido passadas com o objectivo de entreter a imprensa, ocupar as outras partes em desmentidos e esclarecimentos, e manipular a opinião pública, enquanto o processo vai avançando.

segunda-feira, setembro 02, 2013

Reforma dos EME: "Não queremos saber"

É irónico...

Depois de décadas de atenção aos movimentos dos partidos de inspiração marcadamente antimilitarista, bem como ao partido que, apesar de não ser marcadamente antimilitarista, teve no seu programa a extinção do Colégio Militar, a maior ameaça ao futuro do Colégio acaba por vir de um partido que sempre teve posições próximas do Colégio, o que levou até a que um seu ex-líder, hoje Presidente da República, fosse distinguido com a maior honra que o Colégio atribui, a de Aluno Honorário. 

Durante décadas achámos que a ameaça viria dos sectores da sociedade que têm desprezo pelo conceito de Pátria, mas afinal a maior ameaça ao futuro do Colégio acaba por vir de um Governo que faz questão de usar a bandeira de Portugal na lapela.
Durante meses a Associação dos Antigos Alunos do Colégio Militar (AAACM) tentou colocar a sua experiência e o seu conhecimento do Colégio ao serviço da segunda comissão responsável pela reforma dos Estabelecimentos Militares de Ensino (EME). "Não queremos saber", foi a mensagem que foi passada por um Ministério prepotente, que sabe o que quer e não está disponível sequer para fingir que valoriza a opinião das partes interessadas.

Um conjunto de 35 personalidades de relevo na sociedade, nenhuma das quais Antiga Aluna do Colégio, escreveu uma carta ao Presidente da República para que este pedisse ponderação ao Governo. "Não queremos saber", comentou no próprio dia o Ministério.
O Professor Marçal Grilo, responsável pela primeira comissão de análise à reforma dos EME, demarcou-se da forma como o processo está a ser conduzido, sendo um dos signatários da carta. "Não queremos saber", diz o Ministério.
A AAACM pede audiências ao Ministro... nada! A AAACM apela para o Primeiro-Ministro... nada! A AAACM apela para o Presidente da República... nada! "Não queremos saber".
 
A Sra. Secretária de Estado da Defesa Nacional escreveu no Diário de Notícias um artigo no qual desfolha os progressos no sentido da igualdade do género no nosso país, referindo que "no fim do dia, a polémica criada, nos últimos meses, sobre a reforma dos estabelecimentos militares de ensino resumiu-se a isso. Garantir que as mulheres continuariam sem entrar no Colégio Militar".
 
Se a Sra. Secretária de Estado da Defesa Nacional se desse ao trabalho de ouvir, que é uma das características fundamentais de uma líder ou de um líder, teria percebido que, no fim do dia, não é isto que está em causa.
 
A posição da AAACM não é contra a entrada de mulheres no Colégio Militar. As 35 personalidades que escreveram ao Presidente da República não são contra a entrada de mulheres no Colégio Militar. Os Antigos Alunos em geral não são contra a entrada de mulheres no Colégio Militar. Ninguém é contra a entrada de mulheres no Colégio Militar. As pessoas pedem ponderação. Diálogo. Reflexão. Prudência. Porque entre as medidas propostas há algumas que são verdadeiramente "assassinas", como por exemplo a admissão de alunos internos para o 10º ano. E há outras que têm tudo para correr mal se não forem bem pensadas, como a coexistência de internato masculino e feminino no mesmo "campus".
 
Poupança? Tenham dó... a primeira medida é "enterrar" vários milhões de Euros a construir um edifício que ninguém sabe se vai ser necessário ou se está adequadamente dimensionado...
 
Exmo. Sr. Ministro da Defesa Nacional, Exma. Sra. Secretária de Estado da Defesa Nacional, apenas peço aquilo que todos os Antigos Alunos pedem: ponderação, diálogo e prudência. Se realmente não querem destruir uma instituição com mais de 200 anos e inequívocos serviços prestados à Pátria, trabalhem com a AAACM e as restantes entidades envolvidas no sentido de se conseguir uma reforma que atinja os objectivos financeiros e de igualdade de género sem matar o Colégio.

Mas já sei a resposta de V. Exas. a este meu apelo: "não queremos saber".

segunda-feira, maio 07, 2012

Gratidão (Parte II)

Continuação de Gratidão (Parte I).

Um dia, de visita ao Colégio para "farejar" nos negativos deixados pelo Sr. Delgado, encontrei o Prof. Dario. Já me tinham dito que ele ia lá regularmente, geralmente duas vezes por semana, ficava um bocado pelo Bar de Oficiais, almoçava na Messe de Oficiais, e regressava a casa.


O número de professores (e restantes funcionários) do seu tempo ia-se reduzindo progressivamente, mas ainda arranjava companhia para uma conversa ou uma "cartada". Em relação aos oficiais, com excepção dos Antigos Alunos, havia alguma indiferença face a alguém que era considerado um símbolo de um tempo que eles não viveram, e agora o que lhes interessava era o presente, cheio de indefinições quanto ao Colégio e às próprias Forças Armadas. Deixavam-no entrar e estar à vontade, mas tratavam-no sem grande deferência ou proximidade.

Sentámo-nos no Bar de Oficiais e conversámos longamente.

Nunca pertenci à Classe Especial, nem sequer estive perto. Fui aluno do Prof. Dario no 1º e 2º anos, tendo sido seguramente um dos 20% piores alunos que lhe passaram pelas mãos. Ainda assim, foi um dos professores que mais me marcou, pela exigência que tinha para com o seus alunos, pelo apoio que lhes dava para ultrapassarem os seus limites, pela dedicação que tinha ao Colégio, etc., e foi isso que tive a oportunidade de lhe dizer nessa tarde.

Ele ficou surpreendido - possivelmente não esperava que esta "confissão" viesse de um aluno que só não esteve no 3º Grupo quando havia 4 Grupos... - e emocionado, o que era frequente acontecer quando encontrava um Antigo Aluno.

Mas eu também fiquei emocionado e "estiquei-me" ainda mais... disse-lhe que havia muitos Antigos Alunos que gostavam de ter uma oportunidade de lhe manifestar o seu reconhecimento, e que eu haveria de, na medida das minhas capacidades, trabalhar para que isso fosse possível.


Nos anos seguintes surgiram várias ideias, umas mais formais, outras mais espontâneas, outras "megalómanas"... até finalmente surgir a oportunidade perfeita: a atribuição por parte da AAACM do Prémio Barretina "Amigos do Colégio".

A oportunidade era perfeita porque era só entre o Prof. Dario e os seus alunos; era perfeita porque ocorria num evento com bastante dignidade, o jantar que reúne anualmente quatro centenas de Antigos Alunos de todas as idades num espaço de grande prestígio; era perfeita porque este se trata do único prémio que é atribuído pela Associação a quem não é Antigo Aluno. Para além de ser perfeita, essa oportunidade, embora estivéssemos longe de o imaginar, seria também a última, uma vez que poucos meses depois o Prof. Dario deixaria fisicamente a nossa companhia.


O Prof. Dario subiu ao palco e recebeu o prémio das mãos do Presidente da AAACM, perante um aplauso forte, longo e de pé. Fez um discurso simples e sentido, de quem não trabalhou a pensar em distinções, mas sim em ensinar e educar.

Obrigado, Prof. Dario. Sentirei sempre a sua presença.

sábado, novembro 13, 2010

Os 25 Anos de Entrada (Parte X) - Errata

Continuação de Os 25 Anos de Entrada (Parte X).

Esta sim, é a placa dos 25 anos de entrada do curso de 1977/85.

A fotografia apresentada em Os 25 Anos de Entrada (Parte X) era apenas um trabalho de edição fotográfica de má qualidade.

terça-feira, junho 22, 2010

Uma Aula de "Bata"

Apesar de ter terminado a sua carreira como professor em 2005, o Prof. Sena Neves, mas conhecido como "Bata", acedeu a dar uma aula de Matemática por ocasião da comemoração dos 25 anos de saída do curso de 1977/85.

Segundo o próprio, foi uma "dupla maldade", porque teve que preparar a aula e porque esta substituiu a missa habitualmente existente na agenda das visitas dos cursos.

O vídeo da aula está neste link. São 30 minutos "imperdíveis" para quem foi aluno do "Bata".

sexta-feira, maio 14, 2010

Memórias do Baú CXXXIII - "Viva o Papa!"

"Faz hoje [12 de Maio de 2010] 28 anos que fomos para o aeroporto receber o papa João Paulo II, no nosso 5º ano.

Perfilados dum lado e do outro da Avenida que liga as Partidas ao Relógio, e com imenso povo apertado por trás de nós, mas sempre respeitoso, esperámos uma hora ou mais, em farda de gala e em sentido, para cada um de nós fazer continência durante apenas dois segundos, à medida que o Rolls-Royce do Papa passava por nós.

Mesmo sendo tão breve, foi para mim um momento emocionante, que compensou largamente a semana de treinos a praticar o fazer e desfazer sequencial da continência.
"

Manuel de Freitas (204/1977), por e-mail

sexta-feira, março 12, 2010

Os 25 Anos de Entrada (Parte X)

Continuação de Os 25 Anos de Entrada (Parte IX).

Hoje, dia em que o curso de 1977/85 vai ao Colégio comemorar os 25 anos de saída, este blog continua a publicar as fotografias dos 25 anos de entrada. Há algum atraso, mas é perfeitamente recuperável.

Algumas "más línguas" dizem que a placa do curso de 1977/85 é uma cópia da placa do curso de 1976/84. Aqui fica uma fotografia, e os leitores que tirem as suas conclusões.

Continua em Os 25 Anos de Entrada (Parte X) - Errata.

quarta-feira, janeiro 20, 2010

Um Prazer Raro

O livro "'Ratas' - Memórias do Colégio de há 50 anos", da autoria do Rui Sá Leal (502/1959), é sem dúvida um prazer raro.

Começando pelo sentido real do termo, há que referir que livro foi escrito por ocasião dos 50 anos de entrada do curso de 1959 e editado através de uma edição de autor, com uma tiragem limitada. Se tiver a procura que merece, rapidamente se esgotará.

O livro descreve, na primeira pessoa, a experiência do autor enquanto "Rata" no ano lectivo de 1959/60, desde as provas de admissão até às "férias grandes".

Ao longo das suas quase 200 páginas desfilam todos os aspectos da vida Colegial, como as tradições, os castigos, a relação com a família, os graduados, os oficiais, os professores, as instalações, as alcunhas, a gíria, enfim, todos os momentos que contribuem para a experiência única que é o Colégio, descritos por um miúdo de 10 anos, numa linguagem simples e agradável.

Para além desta linha de orientação central, o autor descreve também algumas situações que aconteceram nos anos lectivos seguintes e faz um enquadramento da situação que se vivia no País no início da década de 60 do século XX, elemento fundamental para a contextualização das situações relatadas.

O livro contém ainda várias fotografias, reproduções de documentos da época, e um conjunto de ilustrações da autoria do Pedro Massano (487/1958) que retratam com humor vários aspectos da vida Colegial.

E como era o Colégio de há 50 anos? Surpreendentemente parecido com o meu. O mesmo ritmo, os mesmos ideais, a mesma experiência, apenas com (muito) mais formaturas. Reencontrei o Mestre Pina Lopes, o Dr. Cruz Pinto, o Ten. Dario Fernandes, o Cap. Vitória, o Ten. Abranches de Sousa, o Ten. [Mário] Lemos, o Mestre Oliveira (ainda não tinha a alcunha de "Baco")...

Achava eu que havia alguma inovação na criação da Liga Anti-Cavalo (L.A.C.), mas fui surpreendido ao ler que "[...] começavam a despontar alguns indefectíveis candidatos a membros da L.A.Ca., acrónimo da 'Liga Anti-Cavalo', uma espécie de O.N.G. colegial, cujo objectivo era a extinção absoluta da face da Terra de todo e qualquer cavalo [...]".

"[...] Já sabíamos que [...] 'infelicidade', mais que uma tragédia ou um azar, era, no Colégio, uma piada sem graça nenhuma [...]", pode ler-se mais à frente, e eu, que era o "rei da infelicidade", fiquei a saber que esta expressão já tinha pelo menos 20 anos na gíria Colegial.

Uma parte especialmente interessante é a descrição do "braço de ferro" que se viveu entre os alunos e a Direcção em 1962, com greves de fome, suspensões e expulsões. Um exemplo de união onde vários alunos pagaram caro pela defesa dos seus ideais.

Ao ler o livro, voltei a sentir-me outra vez com 10 anos, e também eu percorri de novo cada recanto do Colégio e revi cada experiência. Lê-lo foi um prazer. Um prazer raro, pelas boas memórias que me trouxe.

sexta-feira, novembro 27, 2009

"Aviso à Navegação"

As más notícias: José Alberto Carvalho fez aos jornalistas da RTP o que nenhum profissional que se preze gosta que lhe façam: deu-lhes conselhos sobre como se devem comportar na sua vida privada.

As boas notícias: pelo menos um deles estava a precisar.


Na realidade, nenhum jornalista devia sentir-se ofendido com a atitude de José Alberto Carvalho. O que o Director de Informação da RTP fez foi recordar aos jornalistas que um jornalista, para além de ser sério, tem que parecer sério, para bem da sua própria reputação e da empresa para a qual trabalha.

Ainda que um jornalista seja livre de exprimir a sua opinião nas redes sociais, sempre que o faz está a condicionar a forma como os espectadores, leitores ou ouvintes vão interpretar o seu trabalho e a posição do órgão de comunicação social para o qual trabalha. Pedir aos jornalistas que ponderem as posições pessoais que assumem, e que as assumam explicitamente como pessoais, não me parece nada estranho, e muito menos abusivo.

O jornal "24 Horas" apresentou a notícia de uma forma equilibrada, descrevendo as reacções dos jornalistas como positivas, com algumas reservas no ponto relacionado com os amigos nas redes sociais (o ponto 5).

A terminar, a notícia refere que "'eventualmente, terão sido detectados alguns exageros' [...] ao que o 24horas pôde apurar, o jornalista José Ramos e Ramos poderá ter sido um dos casos [...] o repórter tem um site onde tinha por hábito relatar detalhes das suas reportagens [...] o jornalista esclarece: 'não me sinto visado [...] os princípios que são invocados, os da ética e deontologia, todos nós cumprimos'".

Permitam-me discordar.

O jornalista José Ramos e Ramos, precisamente o que diz "isto não é para mim", tem, no seu site e em comentários deixados em outros sites, manifestado uma posição claramente contrária ao Colégio Militar. Até aqui tudo bem, está no seu direito de ter uma opinião e de a manifestar, como qualquer cidadão. No entanto, no passado dia 22 de Outubro, pelas 13 horas, na cobertura de uma manifestação contra a violência no Colégio Militar, o Jornalista José Ramos e Ramos usou os meios colocados à sua disposição pela sua entidade patronal para, de uma forma claramente parcial, suportar a sua posição pessoal.

Também já circulou por diversas mailing lists de Antigos Alunos a história de uma Grande Reportagem que estaria a ser preparada pela RTP e que daria uma imagem extremamente negativa do Colégio. Adivinhem quem a fez (ou está a fazer), e com que posições pessoais essa reportagem está alinhada.

José Alberto Carvalho fez bem em lançar este "aviso à navegação". Quem faz o seu trabalho de forma profissional, respeitando a ética e a deontologia da profissão, percebe que não tem nada a recear. Por outro lado, quem quiser utilizar os meios e o tempo de antena da RTP para defender as suas causas pessoais, deve ter percebido a mensagem de que essa atitude não será bem aceite.

quinta-feira, novembro 26, 2009

"Põe Água Fria Que Isso Passa..."

O Igeménio Tadeu, Antigo Aluno nº 11 de 1934, era professor de ginástica no Colégio na altura em que lá estive, e chegou a ser meu professor em alguns (poucos) anos.

O Tadeu não era professor da Classe Especial, e por isso não colocava alunos a voar por cima de mesas alemãs impulsionados de forma razoavelmente aleatória por uma cama elástica; a "acrobacia" mais arriscada para alunos do 3º grupo era saltar um plinto em extensão com os pés juntos: fazer a chamada no trampolim, voar por cima do plinto, apoiar as mãos no outro extremo, encolher os joelhos para o peito e fazer passar os pés por entre as mãos.

Apesar da pouca sofisticação da manobra, era frequente os alunos não conseguirem executar os passos todos; quando os pés não conseguiam passar por entre os braços e "encravavam" na extremidade do plinto, o resultado era geralmente uma queda desamparada para a frente, apesar da ajuda voluntariosa do Tadeu.

Enquanto o desgraçado do aluno se torcia com dores no meio do chão, achando que tinha partido qualquer coisa, o Tadeu exclamava o seu famoso "põe água fria que isso passa", e lá ia o aluno até à casa de banho efectuar o tratamento de acordo com a prescrição.

Não é credível que na formação ministrada no INEF (actual Faculdade de Motricidade Humana) na década de 40 atribuíssem à água fria poderes curativos instantâneos sobre fracturas de ossos ou roturas musculares, mas o que é um facto é que o Tadeu parecia acreditar em tais poderes.

Nunca vi o Tadeu manter na aula um aluno que estivesse magoado. O "põe água fria que isso passa" significava simplesmente "vence a pieguice e a dor, percebe onde é que fizeste asneira e volta a tentar de imediato, porque se conseguires fazer bem vais ganhar confiança e fazer melhor no futuro, mas se desistires o plinto parecerá maior da próxima vez e podes não conseguir voltar a passá-lo".

Ainda hoje, quando vejo uma "Amélia" vacilar à primeira dificuldade, ficar a lamentar-se e querer desistir, lembro-me logo do Tadeu, e do seu "põe água fria que isso passa".

quarta-feira, novembro 25, 2009

Os 25 Anos de Entrada (Parte IX)

Continuação de Os 25 Anos de Entrada (Parte VIII).

O "Rodinhas" (79/1977) em conversa com o Prof. Marques da Costa e o Coronel Souto.

Continua em Os 25 Anos de Entrada (Parte X).

sexta-feira, novembro 20, 2009

Passo Trocado

Portugal é um país onde há crimes, não é um país de criminosos.

Uma generalização é um acto de ignorância ou de má-fé, e se o posso compreender (mas não aceitar) de alegados jornalistas a escrever em alegados órgãos de informação, não o esperava de uma pessoa como o Professor Daniel Sampaio.

O Professor Daniel Sampaio é um psiquiatra de reconhecido mérito, especializado em adolescentes, com presença regular na imprensa, e não resistiu ao apelo do "tema da semana", escrevendo um artigo sobre o Colégio Militar na revista "Pública" do passado dia 1 de Novembro.

Daniel Sampaio começa por referir que "a comunicação social parece ter descoberto agora o que há muito se sabia: existem castigos físicos violentos no Colégio Militar". Em seguida, enumera toda uma variedade de castigos (por exemplo, a "obrigatoriedade de permanecer em 'posição de Cristo' durante horas"), e tudo é apresentado na forma de um diagnóstico claro e objectivo: é claro que existem, é claro que são generalizados, é claro que são (entre outros) estes, e é claro que toda a gente sabe há muito tempo.

A esta altura do artigo já era possível perceber que se passava alguma coisa, porque a expressão "há muito se sabia", uma variante da expressão "toda a gente sabe", é geralmente usada no debate político ou no futebol, em contextos onde a demagogia impera sobre a lógica. Normalmente quando alguém diz "toda a gente sabe" quer simplesmente dizer "eu acho que [...], e quem não concorda comigo é ignorante ou está de má-fé".

"Como se trata de um internato - um modelo educativo felizmente em extinção - [...]", segue o artigo, deixando as coisas um pouco mais claras: Daniel Sampaio não concorda com o internato e acha que este modelo deve ser extinto.

Em primeiro lugar, há que perceber de que internato é que se está a falar. Os alunos do Colégio Militar têm obrigatoriamente que dormir na instituição de segunda-feira para terça-feira, de terça-feira para quarta-feira, e de quinta-feira para sexta-feira. São três noites das sete que a semana tem - não estamos propriamente a falar do internato da "Manhã Submersa", de Vergílio Ferreira. Se devemos extinguir este internato por causa dos alunos dormirem fora de casa em três das sete noites da semana, o que é que se segue? Vamos extinguir os acampamentos dos Escuteiros? Vamos extinguir os campos de férias de verão?

E o que dizer de dezenas de colégios ingleses de grande prestígio, que têm modelos de internato mais exigentes em termos de noites dormidas do que o do Colégio Militar?

O resto do artigo deixa claro que se trata de uma expressão da opinião pessoal de Daniel Sampaio sobre o Colégio Militar - perfeitamente legítima, claro - e não de um diagnóstico profissional, como a utilização da especialidade "Psiquiatra" poderia sugerir.

Já a finalizar, Daniel Sampaio refere: "Sei que muitos alunos, pais e professores do Colégio Militar gostam desta escola. [...] Falta-lhes, contudo, a coragem que apregoam. Escasseia-lhes a bravura para denunciar o que está mal [...]". Uma perspectiva inédita e interessante: Daniel Sampaio acha que os alunos, pais e professores que gostam do Colégio (e admite que os há) são os cobardes responsáveis pela não resolução dos alegados problemas.

Mas há um caminho que me parecia razoavelmente óbvio e que Daniel Sampaio não seguiu, que é o caminho de procurar os responsáveis subindo na cadeia hierárquica, ou seja, responsabilizar a Direcção, as chefias militares e o poder político. Não será que são estas entidades e pessoas que têm a responsabilidade e os meios para identificar e resolver os alegados problemas, e quanto mais acima estão, mais responsabilidade e mais meios têm?

Porque é que Daniel Sampaio não seguiu este caminho? Esquecimento? Poucos caracteres disponíveis no artigo?

Não vou atribuir a Daniel Sampaio intenções que talvez não tenha, mas vou esclarecer os leitores sobre o que encontrarão se avançarem pelo caminho de responsabilizar a tutela pelo que alegadamente se passa no Colégio Militar: irão descobrir, entre outras coisas, que o responsável máximo pela identificação e resolução dos alegados problemas do Colégio Militar, enquanto Comandante Supremo das Forças Armadas, foi durante 10 anos (de 1996 a 2006) o Presidente Jorge Sampaio, irmão de Daniel Sampaio.

Quem diria que às vezes as soluções para os problemas parecem tão longe, mas estão em nossa casa, à mesa do almoço de Natal? Será que Daniel Sampaio não sabia que o irmão tinha capacidade e responsabilidade para resolver os alegados problemas do Colégio Militar? Terá faltado nessa altura a Daniel Sampaio "a coragem que apregoa"? Será que na altura não sabia "o que há muito se sabia"? Talvez simplesmente o Presidente Jorge Sampaio, com a informação adequada e a ponderação e responsabilidade exigidas pela função que ocupava, tenha assumido as posições que considerou mais equilibradas e adequadas aos interesses do País e de todos os envolvidos.

"Esquerdo, direito, um, dois!" era o título do artigo, mas Daniel Sampaio está com o passo trocado.

terça-feira, novembro 17, 2009

"Junk News"

Fazer uma revista semanal deve ser um desafio muito particular. As notícias do dia-a-dia já foram dadas pelos jornais diários, rádios e televisões, pelo que os leitores exigem uma abordagem com um pouco mais de profundidade, ao estilo de jornalismo de investigação; no entanto, esses objectivos chocam com o pouco tempo disponível para um trabalho sério. Estas condicionantes criam o cenário ideal para o estilo "junk news": notícias do dia-a-dia com "uma espécie de investigação".

Porque o tempo é limitado, parte-se para cada tema com a posição a defender já perfeitamente definida. Depois é necessário recolher um número mínimo de evidências (duas a três) que suportem a posição escolhida, traçar uma linha entre essas evidências, e extrair conclusões. É como inferir a imagem de um puzzle de 1.000 peças a partir de apenas uma dúzia dessas peças.

É precisamente nessa linha que se encontram as recentes notícias publicadas pelas revistas "Visão" e "Sábado": notícias superficiais, que misturam alegações recentes com outras com 25 ou 50 anos, sem qualquer validação das fontes ou qualquer contraditório, que misturam o Colégio com os Pupilos, que usam frases e ilustrações sensacionalistas.

Felizmente que o jornalismo em Portugal não é todo assim, mas é ingrato ter que suportar estas acções sem ter os mesmos meios à disposição para responder.